Setembro 2007


Selo de notciasA pesca tradicional está desaparecendo no Velho Chico, mas para compensar a piscicultura é incentivada pelo governo e por empresas privadas

 
O ponto foi estrategicamente calculado. O Vale pernambucano do São Francisco tem água de qualidade, pouca correnteza (devido à barragem de Itaparica) e clima quente, características ideais para criação de tilápias. O peixe é originário do rio Nilo, mas adaptou-se ao Velho Chico, é resistente, tem rápido crescimento, carne branca, não possui espinha e possui grande estabilidade no mercado.

Foi por isso que há um ano a Netuno, empresa produtora e maior exportadora brasileira de pescados, escolheu Petrolândia para criar tilápias. A produção média no município chega a 200 toneladas por mês e na região o quilo do peixe é vendido a R$ 3,10. Em mercados do litoral brasileiro, o quilo custa R$ 4.

Os peixes chegam a Petrolândia com 0,5 mg, são cultivados em tanques escavados e tanques-redes e com seis meses saem para o frigorífico de Paulo Afonso (BA) com peso acima de 800 g. Para isso são necessárias 70 toneladas de ração mensais. No frigorífico, é tirado o filé da tilápia para comercialização no mercado interno e externo e os resíduos do peixe são utilizados para a fabricação de farinha. Os maiores compradores da Netuno são EUA, Japão e países europeus.

Atualmente, a Netuno conta com uma estrutura de 42 tanques de 14 m³ em Petrolândia, nem todos em funcionamento. A meta da empresa é atingir 3.000 tanques e uma produção de 20 toneladas de peixe por dia. Para isso, já está em construção no município um laboratório de produção de alevinos (filhotes de peixes), que deve começar a funcionar em dezembro.

Além da própria produção, a Netuno auxilia a os pequenos produtores de tilápia da região. Os 15 membros da Associação dos Piscicultores de Petrolândia são um dos beneficiados. Eles entraram neste mercado há um ano e meio e contam com a ajuda da empresa para assistência técnica e comercialização do peixe.

A idéia da criação de tilápias em tanques-redes surgiu com o projeto municipal Renascer, que financiava R$ 100 mil e capacitava pessoas desempregadas que quisessem se associar e entrar no ramo da piscicultura. Com o dinheiro, foram construídos um galpão para armazenamento e comprados 48 tanques-redes e alevinos para começar a produção.

“Nos primeiros 6 meses mais nada foi investido, porque não sabiam se nós daríamos conta de criar os peixes”, explica Maurílio Joaquim Lisboa Junior, um dos 15 associados. E deu. A primeira safra atingiu 8 toneladas e foi vendida toda à Netuno. O dinheiro recebido foi convertido em novos investimentos.

Hoje dos 48 tanques da associação, 28 estão em funcionamento. Com isso, cada um dos produtores ganha menos de um salário mínimo por mês. Mas eles estão confiantes no mercado promissor e esperam em 3 anos chegarem a 70 tanques, quantidade suficiente para cada um deles começar a receber R$ 700 mensais.

Selo de notãias

Ele nasceu há muito tempo
O certo não sei dizer
Só sei que não reclama
Vendo tudo acontecer.
Quanto mais se ele falasse
Pra nós seria um desastre
Ao ouvir ele gemer.

Gemeria de tanta dor
De tanta aberração
Da violação do seu leito
Das dores da convulsão.
Quanto mais se ele falasse
Pediria que não cortasse
As veias do coração. 

São veias que na verdade
Cortam os estados nordestinos
Banhando suas fronteiras
Contente como menino.
Se mesmo nesse embalo
Cortasse as veias que falo
Qual seria nosso destino.

 

Não se pode falar em cultura nordestina sem falar em literatura de cordel – poesias com estrofes de sete versos e editadas em pequenos livros. Os cordelistas falam de lendas e heróis da região, contam a história das cidades e santos, anunciam o apocalipse com bom humor e leveza. Mantêm vivo o folclore do Nordeste e são o orgulho dos lugares onde vivem. José Luiz da Silva é um desses escritores: faz cordéis desde 1989 quando descobriu os materiais guardados do bisavô, também cordelista.

 

Já são mais de 38 livretos publicados por ele mesmo com temas que vão desde a história de Petrolândia até o caso do pai que cometeu um incesto sem saber. Agora Zé Luiz está escrevendo a biografia de São Francisco de Assis, padroeiro de Petrolândia. A inspiração vem de causos que as pessoas lhe contam ou que aconteceram com ele mesmo. “Já tive tanta perda nessa vida e continuo sorrindo, alegre. Muita gente não encara a vida assim, por isso não acha inspiração”, explica.

 

Zé Luiz escreve, monta, faz as gravuras da capa e imprime uma tiragem de 100 cordéis, que custam R$ 1. O sustento não vem dos livretos, mas do emprego público: ele trabalha há mais de 23 anos na prefeitura de Petrolândia, onde hoje é responsável pelo setor de cópias. “O apoio é muito pouco, a gente vai ficando chateado. Quase parei uma época”, conta.

 

Além dos cordéis de histórias, Zé Luiz escreve sob encomenda. No Dia das Mães, por exemplo, a diretora de uma escola da cidade pediu-lhe que fizesse um livreto em homenagem à data. Ou então empresas encomendam cordéis com propaganda. O último deles Zé Luiz fez para uma empresa de som automotivo – a tiragem foi de 600 unidades e ele recebeu R$ 600.

 

A poesia do início desta matéria está no cordel A veia da salvação, sobre a relação entre os sertanejos e o São Francisco e a degradação que o rio vem sofrendo. Este é o único dos 38 livretos que Zé Luiz dedica ao Velho Chico, mas todos eles falam em algum momento no rio. “É a nossa fonte maior. Boa parte da população vive dele. Deveria se preservar e não fazer o que se faz”, lamenta.

 

Leia mais trechos de cordéis

Selo de not�ciasSem terra ou Bolsa Família, os pescadores de Petrolândia veem agora os peixes sumirem do lago de Itaparica

Tem o José que foi o primeiro a chegar, quando ainda não existia povoado e o dono do lote queria expulsar quem pisasse suas terras; o José que nasceu aqui, mas se mudou para Ibimirim e agora voltou; o José que veio do Sergipe; o José pedreiro e agricultor que escolheu uma vila de pescadores para morar e talvez morrer. Todos com o mesmo nome e endereço: a pequena vila de pescadores entre as Agrovilas 1 e 2 de Petrolândia, às margens do lago de Itaparica – uma das 4 barragens no leito do rio São Francisco.

A maioria das cerca de 55 famílias vivem da pesca. No fim da tarde, os homens saem com os barcos e colocam as redes no rio, que serão recolhidas no dia seguinte pela manhã. Mas o São Francisco não está para peixe. Na última terça, o pescador José Alexandre Filho, morador mais antigo da vila (está lá desde 1991), colocou na água 20 redes de 50 m cada. Recolheu 2 kg de peixe. “Acredito que essa atividade de pesca com rede tá acabando daqui a uns anos. Não tem mais peixe”, lamenta.

Outro José, o Giliardo Leite da Silva, chegou de Ibimirim há 18 dias atrás da pesca que José Alexandre diz estar acabando. “Pescador um dia tá aqui e outro dia tá no meio do mundo. É que nem cigano, só dá pra andar”, diz ele, com o sorriso tímido enquanto conserta a rede. Desde que chegou com a família, José Giliardo, de 22 anos, notou a escassez de peixe. Hoje, nem sai mais para colocar a rede no rio à noite. Não vale a pena.

Quem não desiste é o sergipano João Muniz, há 4 anos morando em Petrolândia. No fim de semana ele pega a caminhonete e sai pelas feiras de Sergipe vender os peixes que pesca e mais os que compra dos vizinhos. “A gente não tem emprego, daí tem que caçar um lugar pra sobreviver. Aperreado, mas dá”, explica o pescador de 55 anos. Quando sai pelas feiras, João Muniz junta 200 ou 300 kg de peixe congelado – desse total, ele mesmo pescou a metade.

Assim como os pescadores, quem vai todo dia ao rio é José Severino da Silva Filho, ex-pedreiro que há 17 anos chegou na vila depois de ter largado a mulher e os sete filhos em Ibimirim. A mulher ficou lá, os sete filhos o seguiram todos. Sentado na frente da casa pré-moldada onde mora, seu Pernambuco – como é conhecido –, de 75 anos, conta dos banhos diários que toma no rio. Não adianta encher a caixa d’água da casa: o mergulho no São Francisco é por opção – o resultado dos dois banhos é o mesmo: na vila dos pescadores não há água tratada.

Selo de not�ciasPor onde passarem, os canais e reservatórios dos eixos Norte e Leste vão ocupar as terras de milhares de sertanejos. Dentre os primeiros a sentirem isso estão os agricultores de Floresta

No canteiro de obras da Barragem de Areias, eixo Norte da transposição do São Francisco, há um trabalhador que se confunde com os soldados uniformizados do Exército. Ele também usa a camisa grossa camuflada típica dos militares, mas, ao contrário deles, não dirige caminhões ou máquinas que fazem terraplanagem. Seu Nezinho recolhe os galhos verdes de algaroba que vai levar para dar de comer aos bodes. A roupa oficial do Exército foi presente dos “meninos”. “Eles disseram ‘ó, essa camisa é pro senhor trabalhar embaixo do sol’”.

Nezinho, Eixo LesteOs “meninos” estão trabalhando diariamente no quintal de Manoel Domingos Filho, o seu Nezinho, desde o início da construção da barragem. A casa dele fica a 600 m da obra, e para começá-la o governo desapropriou 30 ha da propriedade – restaram-lhe cerca de 40. O preço pago foi R$ 70 mil. Com o dinheiro da indenização seu Nezinho comprou um carro e fez uma nova casa nas terras que sobraram. “Se fosse negociar para particular um chão assim sem água o preço é bem mais baixo. Ninguém quer comprar porque é um lugar sem vida”, conta seu Nezinho.

Aos 50 anos, ele mora com a esposa na propriedade onde os dois criam bodes, ovelhas, vacas. Estão ali, sozinhos, convivendo com as secas desde 1990. Agora seu Nezinho acha que as coisas vão melhorar. Quando os canais da transposição estiverem prontos ele quer aproveitar a irrigação para plantar coco, caju, pasto para os animais. Até uma estação de tratamento de água os militares disseram que vai ter. “Isso é uma parte da gente que a gente tem que dividir com a humanidade. Eu espero que não seja ruim nem pra nós nem pra quem vai receber água”, explica.

A uns 2 km de onde seu Nezinho recolhe os galhos de algaroba para os bodes, o pessoal do sindicato rural está reunido na casa de dona Helena Costa Sá. Assim que as obras da barragem avançarem, o barraco de chão de terra batida, paredes caiadas e cartazes pendurados do PT (Partido dos Trabalhadores) vai ser demolido. “Aqui onde a gente tá só vai dar pra passar de canoa, se Deus quiser!”, ri dona Helena. A área da casa também foi desapropriada, pouco mais de 20 hectares, e pelas terras foram pagos R$ 40 mil.

desapropriacao05.JPGCom o dinheiro, dona Helena comprou uma casa em Floresta e construiu outra nova nos quase 30 hectares que sobraram. Já dona Lindomar Ferraz Silva comprou um carro com os R$ 50 mil que recebeu pelos 30 hectares desapropriados. “Só é contra a transposição aquelas pessoas que nunca ficaram sem água”, defende ela.

A única que não está muito contente com as manobras indenizatórias do governo é dona Maria Hilda de Sá Leal. Pelos seus 27 hectares desapropriados para a construção do canal ela vai receber R$ 8.700. A primeira proposta era R$ 2.700, sob a alegação de que a terra de dona Maria Hilda era solo de cascalho sem nenhuma benfeitoria. Ela bateu o pé e não aceitou o preço inicial, até que vieram com a segunda proposta. Mas o dinheiro – que só vai chegar quando o inventário do marido ficar pronto – já está empenhado: dona Maria Hilda vai usá-lo para ajeitar a casa e o resto dividirá entre os 13 filhos.

Selo de not�cias

Atualizada em 27.09, às 21h20.

Depois de 20 anos de vida pacata, os moradores da Agrovila 6 tiveram que se acostumar com a presença e a rotina dos militares que trabalham no Eixo Leste

 

Quem vai visitar a Agrovila 6, no município de Floresta, tem uma surpresa logo na entrada. Uma comissão de frente formada por 5 militares fardados, portando fuzis, para todos os carros em uma blitz. Para entrar na comunidade é preciso apresentar documentação e dizer aonde vai. Os visitantes estranham, mas isso dá uma sensação de segurança. A dificuldade é para os moradores da vila, que depois de 20 anos precisam de autorização para entrar na própria casa.

O Tenente-Coronel Gurgel, coordenador do Destacamento do Exército, explica que o acesso às casas não é restrito, a barreira é apenas uma forma de controlar quem entra e quem sai da vila com pretensão de evitar assaltos e o Joselio _ Agrovila 6tráfico de drogas. Os moradores da Agrovila acham a segurança um aspecto positivo, mas enfrentam outro problema. “Ninguém aqui se incomoda com a barreira e o porte de armas, nosso medo é se houver qualquer reação ao trabalho dos militares e eles precisarem usá-las, ninguém sabe o que pode acontecer”, conta Josélio Amaro Lisboa, presidente da Associação dos Moradores da Agrovila 6.

Hoje, as 68 famílias vizinhas do Exército estão mais tranquilas e acostumadas. Os militares estão instalados na região há 3 meses e nada aconteceu. Além disso, a presença deles trouxe outros benefícios à comunidade. Na Agrovila não havia tratamento de água até a chegada do Batalhão e agora a água é pura e distribuída gratuitamente; há semanalmente recolhimento de lixo; estão disponíveis diariamente médicos, dentistas, barbeiros e ambulâncias; e são promovidas palestras educativas para os moradores. O comércio também se desenvolveu na vila, foram abertos 3 bares com mesas de sinuca e uma sorveteria.

A preocupação de Josélio é até quando esta paz e harmonia vão durar. “Acho muito difícil tanta gente em um lugar tão pequeno continuar tudo assim calmo por muito tempo”. A previsão é que os militares fiquem na região por 3 anos.

A vantagem maior é para as 11 famílias que saíram de suas casas e alugaram-nas para o Exército. Os moradores foram para seus terrenos na roça e conseguiram uma renda mensal extra, de R$ 100 a R$ 150. Antes dos militares se instalarem na região, os imóveis não eram valorizados e o aluguel girava em torno de R$ 50. Além do dinheiro, as famílias terão suas casas reformadas com gesso, pintura, cercas e ampliações.

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