A falta que essas coisas fazem! Assim que pegamos o carro na locadora (estávamos quase a pé: de Honda Civic!) voltamos pro aeroporto pra buscar a Robertinha e o pai dela e levá-los até seu hotel. Até aí tudo bem: vias principais, movimento intenso, o sol e o leito do rio nos guiando – aquela coisa de quem nunca esteve no lugar. O hotel da nossa amiga fica na orla e o carinha das bagagens nos ensinou como chegar no nosso.

Até que foi indolor: nosso hotel fica bem no centro, facinho de chegar a partir da Catedral. E a Catedral… pô, até eu sei chegar lá sozinha! Registramo-nos, deixamos nossa bagagem, pegamos bloquinho, caneta e cartão telefônico e rumamos pro orelhão mais próximo – que fica a uns vinte passos da portaria do hotel. Tentamos ligar pra CPT de Juazeiro mas a ligação não completava e não havia razão que explicasse nossa incomunicabilidade. Apelamos pro celular.

(Um de nossos maiores medos, o de ficar sem telefone porque a Brasil Telecom não cobre Pernambuco revelou-se injustificado. Meu celular agora é Oi e o da Tici, Claro. Mesmo assim, são números de prefixos 48 e 55, caríssimos para serem usados sem parcimônia. Amanhã a gente compra um chip daqui e acaba o problema.) Finalmente conseguimos falar com a Marina da CPT, que nos falou que ainda tinha gente dos movimentos em Juazeiro, mas que precisávamos ser rápidas porque todo mundo estava indo embora. Voamos de volta pro hotel. Enquanto a Tici tirava aquela monstruosidade chamada Honda Civic da garagem, eu pegava o gravador e outras cositas no quarto.

Cruzamos a ponte pela primeira vez (primeira vez pra Tici, que eu já tinha vindo pra cá há muito, muito, muito tempo) e tivemos que concordar com o que nossas fontes nos diziam: a diferença entre Petrolina e Juazeiro é gritante. Enquanto o lado pernambucano é modernoso e com ares de cidade rica, a margem baiana tem cara de província pobre. Um amigo trazido pelo caos aéreo nos disse que quando uma panela cai no chão em Juazeiro as pessoas levantam e começam a dançar porque acham que é música.

Precisávamos achar o lugar onde o pessoal dos movimentos sociais estava reunido. Uma hora e duas ligações pra Marina depois estávamos desistindo de achá-lo. Não tínhamos pontos de referência, estávamos longe do centro, completamente perdidas e já era noite cerrada. Precisávamos achar um lugar “à direita depois do castelinho, um trem grande com umas árvores na frente, não tem como errar!”.

Fizemos mais uma tentativa. Dessa vez eu liguei e falei com o Ruben, também da CPT. Ele nos deu novas orientações, a partir das quais chegaríamos à sede da CPT, no centro de Juazeiro, perto da Catedral (cada lado do rio tem uma, não confunda!). As instruções do Ruben foram precisas, mas eu já tava meio retardada quando as ouvi, de modo que não conseguimos achar o lugar de novo.

Mas achamos a Catedral. Graças a Deus estava começando uma missa naquela hora e conseguimos achar a solidária Nice, que nos levou até a CPT, na rua Conselheiro Luis Viana. Era uma viela estreita e se tivéssemos que achar a sede sozinhas nunca que eu e a Tici acreditaríamos que a Comissão Pastoral da Terra de Juazeiro ficava naquela casinha acanhada e discreta (Deus que nos perdoe).

Lógica à parte, era lá mesmo. E, depois de toda aquela maratona, estava tudo escuro. Não tinha ninguém ali. Ficamos meio sem saber o que fazer por uns 30 segundos até que encostou um carro. Nele estavam o Ruben e o Cícero, outro de nossos contatos na CPT. O Ruben foi no carro conosco e nos levou até a casa da Marina, para onde o que sobrara do pessoal tinha ido.

Tivemos menos de meia hora pra conversar com o Ruben, mas foi bom do mesmo jeito. Com todos os atrasos – o grandão causado pela Ocean Air e o grande, pela confusão de Juazeiro – ainda pudemos conversar um pouco com o povo dos movimentos (tinha ainda dez pessoas na casa da Marina) e pegar contatos. Também ficamos sabendo que eles estão começando a montar as bases de protesto contra a transposição nas cidades ribeirinhas. E é claro que a gente vai dar um jeito de ir junto.

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