Selo de notciasCom a barragem de Itaparica os moradores da pequena Itacuruba passaram a viver do funcionalismo publico e de indenizações

Itacuruba é uma cidade cenográfica. De um lado da avenida principal prédios públicos e comércio; do outro, residências e pracinhas, uma a cada quadra. No fim da via, a praça principal, em cujo centro está a Igreja de Nossa Senhora do Ó, padroeira da cidade. Os jardins e canteiros são coloridos e bem cuidados – uma paisagista de Recife é encarregada de mantê-los perfeitos. Na rua as pessoas disputam as sombras das árvores, conversam em bandos e não parecem ter compromisso nenhum para o resto do dia. O clima é de domingo, mas são 3h de uma segunda-feira.

“Antes, a uma hora dessas não tinha ninguém em casa. Agora fica todo mundo sem ter o que fazer” lamenta Adaltiva Maria da Conceição Lourenço, a dona Tivinha. Antes que a CHESF (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco) represasse o rio São Francisco, transformando-o na barragem de Itaparica, e inundasse toda a velha Itacuruba em 1988. Antes que essa mesma CHESF construísse outra Itacuruba, planejada e afastada da represa. Antes que a nova Itacuruba se transformasse em uma cidade de funcionários públicos, ao contrário da primeira, que tinha vida própria.

A barragem não inundou só a cidade; também ficaram embaixo d’água as ilhas e margens do rio, terras conhecidas como aluviões – as mais férteis do município. Os agricultores ribeirinhos foram deslocados para a cidade e passaram a receber uma espécie de salário da CHESF, a VMT (Verba de Manutenção Temporária), que seria paga até que cada família recebesse um novo lote de terra. Tal dia nunca chegou e as 300 famílias que perderam sua propriedade para Itaparica tiveram que se manter com a VMT (2,5 salários mínimos) por 12 anos. “Éramos humildes, pobres, mas não miseráveis. Não havia desemprego. Saímos da margem do rio, o que foi um prejuízo imensurável”, comenta o prefeito de Itacuruba Romero Magalhães Lêdo.

Em 1999, com a onda de privatizações que ameaçava engolir a CHESF, a empresa quis se livrar do compromisso de sustentar as 300 famílias que ainda esperavam receber suas terras. Suspendeu a VMT e pagou indenizações, deixando uma legião de ex-agricultores que haviam sido providos por ela durante 12 anos e cujos filhos cresceram vendo os pais passarem o dia inteiro ociosos. O resultado é que hoje Itacuruba tem uma taxa de suicídio entre jovens 11 vezes maior do que a média nacional. O motivo é a total falta de perspectiva.

Dona Tivinha era viúva e tinha uma filha de 9 anos quando a barragem engoliu a cidade velha. A roça de 3 hectares ficava na margem do São Francisco. Por mais que não mexa na terra há 12 anos, nos documentos ainda consta “agricultora” como profissão. “Foi muito ruim abandonar nossa casinha na beira do rio pra vir pra essa caatinga”, lamenta. Quando a CHESF indenizou as terras em 1999, dona Tivinha recebeu R$ 34 mil reais. O dinheiro foi todo gasto na casa onde ela, a filha e o genro moram hoje. A filha que cresceu vendo a mãe esperar pelo pedaço de terra prometido, e que hoje está desempregada.

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