Outubro 2007


Bateu a saudade do blog. Quase 20 dias depois da nossa volta de Pernambuco não fizemos mais do que 5 posts. A Tici tá bastante atarefada por causa do crossmídia – fazer layout, bolar storyboard, montar os recursos, aprender flash… Como a parte que me cabe nesse latifúndio envolve menos trabalho braçal, resolvi tomar vergonha na cara de uma vez e pagar minha dívida com os leitores.

Acho que esse é meu último post. Agora, com a vida correndo normalmente e a rotina tomando conta de novo me toquei do quanto nossa estada franciscana foi diferente de tudo que vivi até hoje. Tínhamos aquele ritmo louco de trabalho e precisávamos chegar em várias pessoas todos os dias, fazer o mesmo discursinho (“oi, meu nome é caroline, sou estudante de Santa Catarina, blá, blá, blá”) e conseguir que elas falassem com a gente. E sabe que era bom? Isso é jornalismo. É nessa vida que estou entrando? Se for, vamos nessa.

Já falei aqui das nossas percepções das 10 cidades de Pernambuco banhadas pelo rio São Francisco. O negócio é mais ou menos o mesmo, não vou ficar repetindo o que já dissemos. Só uma coisa vou dizer de novo: o quanto nos animava ver o sucesso do blog. Chegamos a ter 430 visualizações em um dia e mesmo hoje, terça-feira, com o blog meio às moscas, foram 54. É a melhor recompensa pelo nosso trabalho. A melhor.

Obrigada, Zeca, pela orientação, assessoria de imprensa, puxões de orelha, correções e apoio incondicional. Obrigada, nossos amigos de perto e de longe, da faculdade e da infância, por estarem no MSN, no orkut, no e-mail, no telefone e sempre junto. Obrigada, às pessoas que nos ajudaram em Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Paraíba e Pernambuco. Obrigada, leitores sem rosto ou comments.

Muito obrigada aos que entregaram suas histórias e até choraram pra que pudéssemos encher nossos bloquinhos, gravador e máquinas fotográficas. E muito, muito, muito, muito obrigada às nossas famílias por terem nos aguentado, ajudado, financiado e atendido o telefone todas as noites, ouvido nossas lamúrias e choramingos e ainda assim dito “vai lá, estás no caminho certo, estamos orgulhosos de ti”, mesmo que as palavras nunca tenham sido pronunciadas e a saudade fosse enorme.

Quase um agradecimento de tese, hein? Bom, pra terminar aí embaixo vão links de outros blogs que nos citaram. Divirtam-se. 

Blog do Noblat

Jornal da Mídia

DVeras em Rede

De Olho na Capital

Coluna Extra 

matéria que o Coluna Extra fez sobre a gente

Calma. Não estamos em greve de posts nem esquecemos do blog. Talvez um pouco de preguiça combinada com a volta à realidade de nossas vidas em Florianópolis tenha nos afetado na demora a atualizar. Chegamos em casa na sexta passada, dia 5, depois de 7 horas de voo. Incrivelmente só trocamos de avião em Brasília; em Salvador e Guarulhos só fizemos escala. E em Brasília saímos de uma aeronave e logo entramos na outra. Se na vinda perdemos um dia inteiro por causa do caos aéreo na volta viemos bem tranquilas – por mais que o voo tenha atrasado pra sair de Petrolina, fazendo-nos imaginar perder as conexões de novo.

 

Na chegada a Floripa, às 11h30 da noite, nossos pais e irmãos nos esperavam no aeroporto. Juntamos as famílias e saímos pra conversar; depois foi cada uma pra sua casa, matar as saudades das nossas camas (que nunca pareceram tão convidativas) e dos chuveiros inigualáveis. A Keka já tinha nos dito que a volta a Florianópolis seria um baque, um choque. Que sentiríamos um vazio e uma vontade de sair correndo e voltar pro mundo. Eu senti isso depois que a casa ficou silenciosa e era hora de dormir – sozinha, depois de um mês de convivência diária com a Tici. Nos dias seguintes, conversando, descobrimos que as duas havíamos sentido mais ou menos a mesma estranheza.

 

O mar da Baía Norte não substitui o rio que nos acostumamos a encarar todo dia. O São Francisco nos acalmava e era a ele que recorríamos quando as idéias não vinham, as coisas não davam certo e os dias não rendiam. Azul, calmo e lindo como nenhum outro rio, o Velho Chico estava sempre ali, com sua monotonia sempre diversa que nos hipnotizava (como diria António Lobo Antunes).

 

Agora é colocar a cabeça no lugar e os neurônios pra trabalhar. Temos um TCC pra fazer – uma grande reportagem em texto e um produto crossmídia para internet, como vocês já devem estar carecas de saber – e nosso deadline é 21 de novembro. Parece muito perto mas longe ao mesmo tempo se olharmos pra trás e pensarmos o quanto se pode fazer em um mês.

 

Nos próximos dias ainda vamos postar mais algumas coisas e fazer cada uma o seu post pessoal de despedida. Não vamos mais ter tempo pra escrever ou coisas interessantes pra colocar no blog daqui pra frente, pois nosso dias serão tomados pela produção e redação dos dois produtos do TCC.

 

Queremos agradecer a todos que nos ajudaram, apoiaram e leram neste mês de tantas mudanças e crescimento. Ver as estatísticas do blog depois de um dia estafante, quando não queríamos mais saber de nada, muito menos escrever, sempre nos incentivava a domar as letrinhas mais uma vez, e outra, e outra, e outra…

 

Esperamos que vocês tenham gostado dessa viagem tanto quanto nós. Nosso mais sincero obrigado a todos e até a próxima.

= )

Chegamos a Petrolina ontem no fim da tarde. Depois de 8 horas de viagem, incluindo as paradas para almoço e novos vídeo-depoimentos sobre o rio, estávamos exaustas. Mas não ficamos entocadas no hotel. Queríamos aproveitar nossos diazinhos de folga para curtir e relaxar. O primeiro passo foi ir ao Bradesco falar com o gerente, amigo do meu pai. Precisávamos de uma indicação de oficina de confiança para levarmos o Chiquinho, que sofreu escoriações na luta contra a caatinga do sertão.

 

De lá, saímos direto pro shopping. Patricinhas em busca de compras? Não! Claro que não. Queríamos banho de cultura, cinema. Para nossa surpresa, a meia-entrada aqui custa R$ 3 (com direito a uma mini-pipoca) e estão em cartaz dois filmes: O homem que desafiou o diabo e O ultimato Bourne. Este eu já tinha visto antes de viajar e aquele nós duas nem sabíamos sobre o que se tratava. Apesar de correr o risco de assistir um filme ruim, optamos pelo brasileiro e não nos arrependemos! É mais um longa que retrata o sertão nordestino e mistura lendas da cultura local. Para quem curte regionalismos é uma boa pedida. Depois do cinema, uma voltinha pela cidade e cama! Estávamos cansadas e dormimos bem mais cedo do que de costume.

 

Hoje é dia de São Francisco de Assis e faz exatamente um mês que saímos de casa. Acordamos cedo, mandamos o Chiquinho pro pronto-socorro e estamos mofando no hotel. A expectativa (profissional) de encontrar alguma manifestação ao longo do rio foi por água abaixo. Ninguém fez nada – o que pessoalmente nos deixou muito feliz. Estamos cansadas de trabalhar. Queremos agora descansar, nos preparar para o retorno à rotina, encontrar amigos, familiares e namorado em Floripa. Depois pensamos no TCC, storyboard, flash, textos, fotos, legendas, infográficos…

 

Só em pensar que o trabalho tem que estar pronto até o dia 21 de novembro fico apavorada, assim

como todo mundo (eu acho). Como unir todo o material coletado neste mês? Ah! Falando nisso, esqueci de contar: ontem tivemos o primeiro feedback externo do blog. Quando chegamos a Orocó, fomos até o Sindicato dos Trabalhadores Rurais em busca de um depoimento do seu Landim. O depoimento ficou bem legal e assim que eu me animar, posto aqui. Na hora da despedida:

 

Landim – Eu já olhei na internet, a matéria minha e do padre.

Carol – E o que o senhor achou?

Landim – Gostei, gostei bastante. Parabéns e boa sorte com o trabalho.

 

Primeiro retorno e positivo, quer coisa melhor? Elogios de familiares e amigos é uma coisa, mas de um entrevistado é bem diferente.

 

Enfim, continuamos aqui no hotel… lendo, vendo emails, fuçando no orkut, falando no MSN. A preguiça é grande e a saudade de casa também. Ah! A vontade de tomar banho no Velho Chico! Mas sem o Chiquinho fica difícil. Aqui em Petrolina é como Floripa, para encontrar um ponto provável para banho precisa andar muito.

 

Daqui a pouco vamos buscá-lo, assim eu espero, porque ainda precisamos comprar as encomendas e os presentes. Amanhã nos despedimos do Chiquinho e de Pernambuco e enfrentamos o caos aéreo. A uma hora dessas, devemos estar no vôo 6185 com destino a Salvador. Depois paramos em Brasília, Guarulhos e, se tivermos sorte, às 22h35 pousamos na Ilha da Magia. Falando nisso, como anda o clima por aí?

Selo de not�ciasSe não houver um controle rigoroso da vazão retirada pelos canais dos eixos Leste e Norte o reservatório de Itaparica vai ficar abaixo do nível de água aceitável

 

A única usina hidrelétrica de Pernambuco corre o risco de ter sua geração de energia prejudicada pela transposição do rio São Francisco. A afirmação é do gerente da divisão regional da Usina Luiz Gonzaga Valdy Benigno dos Santos. O problema é que o reservatório de Itaparica é pequeno – possui 3,7 milhões de m3 de volume útil – e se a vazão retirada pelos canais do eixo Norte e Leste não for controlada a água acumulada na barragem será insuficiente.

“A transposição não interferiria na geração de energia, mas quem garante que a vazão retirada do rio vai ser mesmo só de 1%?”, contesta Valdy, citando o percentual que será desviado do São Francisco, alegado pelo governo, de 26 m3/s. O engenheiro mecânico, especialista em energia elétrica, explica que fiscalizar a vazão da água nos canais seria muito difícil e que a demanda nas cidades recebedoras vai aumentar nos períodos mais secos, justamente quando o nível de Itaparica estiver mais baixo.

Além disso, Valdy defende a revitalização antes da transposição. De todos os 168 afluentes do São Francisco 14 estão secos e muitos deles estão morrendo. “Tem que dar condição da água chegar até aqui, não é só tirar”, defende. Já houve secas nas quais a vazão do rio diminui para 700 m3/s, sendo a vazão média 2.800 m3/s.

 

Usina

A Luiz Gonzaga começou a ser planejada em 1975, durante o governo do militar Ernesto Geisel, para evitar uma falta de oferta de energia futura. A obra atrasou por dificuldades financeiras e o racionamento chegou, em 1987 – o que fez com que a usina fosse acelerada e concluída em 1988. Antes conhecida como Usina Hidrelétrica de Itaparica, ela tem capacidade de abastecer todo o estado de Pernambuco e gera 1.500 MW de potência.

Selo de not�ciasA rodovia divide o município de Jatobá em centro administrativo e vila de Itaparica. Um lado pobre, outro rico.

 

De um lado da rodovia BR-110 Jatobá, do outro, o Acampamento de Itaparica. Ao entrar à direita, uma cidade pouco desenvolvida, quase sem comércio, cuja economia é fundamentada no funcionalismo público. À esquerda, uma vila toda asfalta, com pouco lixo espalhado, jardins e praças lindos, casas grandes, um hospital, um clube de recreação, um bairro-modelo construído para os funcionários da Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco). O contraste entre o centro e o bairro é visível, mas não há rivalidades. Não mais.

Quando foi construído, em 1977, o acampamento era como um condomínio residencial sem mensalidades. Para um visitante entrar precisava se identificar e avisar o endereço desejado. Por meio de uma ligação no interfone, o porteiro contatava a família que liberava ou não a entrada. Além da segurança e da qualidade de vida, os moradores tinham também outros privilégios: não pagavam pela água e energia consumida, podiam aproveitar o clube, o hospital, as escolas próprias, o comércio. Não precisavam sair dali, se não quisessem.

Quem não trabalhava na construção da Usina de Itaparica não podia desfrutar destas vantagens. O que restava era viver da agricultura ou pesca na outra margem da rodovia. Muitos inclusive eram desempregados de todos os cantos do país em busca de uma vaga na Chesf. Até 1995, quando houve a emancipação do município, os habitantes de Jatobá eram discriminados e ignorados.

“Depois disso, tudo virou uma coisa só, a administração era a mesma e o acesso à vila teve que ficar mais fácil, não tem só funcionário da Chesf morando lá”, conta Silas Monteiro Pinto, 33, hoje chefe de Gabinete do prefeito de Jatobá. Silas mora na vila de Itaparica desde os 8 anos – seu pai era geotécnico, e lembra como era esbanjado dinheiro no início. Presente para as crianças no Natal, ovos de chocolate na Páscoa, educação de primeira, segurança exemplar. “A Chesf não poupava dinheiro”.

Teoricamente, com a emancipação, os setores de manutenção, educação, saúde e administração do acampamento passariam para responsabilidade do município. Mas não foi o que aconteceu. Apesar de não serem finalidades da empresa, alguns serviços públicos como saneamento, distribuição de água e energia e infra-estrutura continuaram sob o domínio da Chesf.

Atualmente, o prefeito Itomar Tolentino Varjão e a direção da empresa negociam na Justiça uma forma de municipalizar a administração da vila sem prejudicar o desenvolvimento de Jatobá, afinal, a receita da cidade continuará a mesma (R$ 800 mil), mas as despesas dobrarão. A proposta da prefeitura é uma administração conjunta durante 3 anos e depois, uma ajuda de custo: valor inferior para energia, empréstimos de máquinas para manutenção e royaltes da Usina Paulo AfonsoIV.

Próxima Página »