Nova Petrolândia


Selo de notciasA pesca tradicional está desaparecendo no Velho Chico, mas para compensar a piscicultura é incentivada pelo governo e por empresas privadas

 
O ponto foi estrategicamente calculado. O Vale pernambucano do São Francisco tem água de qualidade, pouca correnteza (devido à barragem de Itaparica) e clima quente, características ideais para criação de tilápias. O peixe é originário do rio Nilo, mas adaptou-se ao Velho Chico, é resistente, tem rápido crescimento, carne branca, não possui espinha e possui grande estabilidade no mercado.

Foi por isso que há um ano a Netuno, empresa produtora e maior exportadora brasileira de pescados, escolheu Petrolândia para criar tilápias. A produção média no município chega a 200 toneladas por mês e na região o quilo do peixe é vendido a R$ 3,10. Em mercados do litoral brasileiro, o quilo custa R$ 4.

Os peixes chegam a Petrolândia com 0,5 mg, são cultivados em tanques escavados e tanques-redes e com seis meses saem para o frigorífico de Paulo Afonso (BA) com peso acima de 800 g. Para isso são necessárias 70 toneladas de ração mensais. No frigorífico, é tirado o filé da tilápia para comercialização no mercado interno e externo e os resíduos do peixe são utilizados para a fabricação de farinha. Os maiores compradores da Netuno são EUA, Japão e países europeus.

Atualmente, a Netuno conta com uma estrutura de 42 tanques de 14 m³ em Petrolândia, nem todos em funcionamento. A meta da empresa é atingir 3.000 tanques e uma produção de 20 toneladas de peixe por dia. Para isso, já está em construção no município um laboratório de produção de alevinos (filhotes de peixes), que deve começar a funcionar em dezembro.

Além da própria produção, a Netuno auxilia a os pequenos produtores de tilápia da região. Os 15 membros da Associação dos Piscicultores de Petrolândia são um dos beneficiados. Eles entraram neste mercado há um ano e meio e contam com a ajuda da empresa para assistência técnica e comercialização do peixe.

A idéia da criação de tilápias em tanques-redes surgiu com o projeto municipal Renascer, que financiava R$ 100 mil e capacitava pessoas desempregadas que quisessem se associar e entrar no ramo da piscicultura. Com o dinheiro, foram construídos um galpão para armazenamento e comprados 48 tanques-redes e alevinos para começar a produção.

“Nos primeiros 6 meses mais nada foi investido, porque não sabiam se nós daríamos conta de criar os peixes”, explica Maurílio Joaquim Lisboa Junior, um dos 15 associados. E deu. A primeira safra atingiu 8 toneladas e foi vendida toda à Netuno. O dinheiro recebido foi convertido em novos investimentos.

Hoje dos 48 tanques da associação, 28 estão em funcionamento. Com isso, cada um dos produtores ganha menos de um salário mínimo por mês. Mas eles estão confiantes no mercado promissor e esperam em 3 anos chegarem a 70 tanques, quantidade suficiente para cada um deles começar a receber R$ 700 mensais.

Selo de notãias

Ele nasceu há muito tempo
O certo não sei dizer
Só sei que não reclama
Vendo tudo acontecer.
Quanto mais se ele falasse
Pra nós seria um desastre
Ao ouvir ele gemer.

Gemeria de tanta dor
De tanta aberração
Da violação do seu leito
Das dores da convulsão.
Quanto mais se ele falasse
Pediria que não cortasse
As veias do coração. 

São veias que na verdade
Cortam os estados nordestinos
Banhando suas fronteiras
Contente como menino.
Se mesmo nesse embalo
Cortasse as veias que falo
Qual seria nosso destino.

 

Não se pode falar em cultura nordestina sem falar em literatura de cordel – poesias com estrofes de sete versos e editadas em pequenos livros. Os cordelistas falam de lendas e heróis da região, contam a história das cidades e santos, anunciam o apocalipse com bom humor e leveza. Mantêm vivo o folclore do Nordeste e são o orgulho dos lugares onde vivem. José Luiz da Silva é um desses escritores: faz cordéis desde 1989 quando descobriu os materiais guardados do bisavô, também cordelista.

 

Já são mais de 38 livretos publicados por ele mesmo com temas que vão desde a história de Petrolândia até o caso do pai que cometeu um incesto sem saber. Agora Zé Luiz está escrevendo a biografia de São Francisco de Assis, padroeiro de Petrolândia. A inspiração vem de causos que as pessoas lhe contam ou que aconteceram com ele mesmo. “Já tive tanta perda nessa vida e continuo sorrindo, alegre. Muita gente não encara a vida assim, por isso não acha inspiração”, explica.

 

Zé Luiz escreve, monta, faz as gravuras da capa e imprime uma tiragem de 100 cordéis, que custam R$ 1. O sustento não vem dos livretos, mas do emprego público: ele trabalha há mais de 23 anos na prefeitura de Petrolândia, onde hoje é responsável pelo setor de cópias. “O apoio é muito pouco, a gente vai ficando chateado. Quase parei uma época”, conta.

 

Além dos cordéis de histórias, Zé Luiz escreve sob encomenda. No Dia das Mães, por exemplo, a diretora de uma escola da cidade pediu-lhe que fizesse um livreto em homenagem à data. Ou então empresas encomendam cordéis com propaganda. O último deles Zé Luiz fez para uma empresa de som automotivo – a tiragem foi de 600 unidades e ele recebeu R$ 600.

 

A poesia do início desta matéria está no cordel A veia da salvação, sobre a relação entre os sertanejos e o São Francisco e a degradação que o rio vem sofrendo. Este é o único dos 38 livretos que Zé Luiz dedica ao Velho Chico, mas todos eles falam em algum momento no rio. “É a nossa fonte maior. Boa parte da população vive dele. Deveria se preservar e não fazer o que se faz”, lamenta.

 

Leia mais trechos de cordéis

Selo de not�ciasSem terra ou Bolsa Família, os pescadores de Petrolândia veem agora os peixes sumirem do lago de Itaparica

Tem o José que foi o primeiro a chegar, quando ainda não existia povoado e o dono do lote queria expulsar quem pisasse suas terras; o José que nasceu aqui, mas se mudou para Ibimirim e agora voltou; o José que veio do Sergipe; o José pedreiro e agricultor que escolheu uma vila de pescadores para morar e talvez morrer. Todos com o mesmo nome e endereço: a pequena vila de pescadores entre as Agrovilas 1 e 2 de Petrolândia, às margens do lago de Itaparica – uma das 4 barragens no leito do rio São Francisco.

A maioria das cerca de 55 famílias vivem da pesca. No fim da tarde, os homens saem com os barcos e colocam as redes no rio, que serão recolhidas no dia seguinte pela manhã. Mas o São Francisco não está para peixe. Na última terça, o pescador José Alexandre Filho, morador mais antigo da vila (está lá desde 1991), colocou na água 20 redes de 50 m cada. Recolheu 2 kg de peixe. “Acredito que essa atividade de pesca com rede tá acabando daqui a uns anos. Não tem mais peixe”, lamenta.

Outro José, o Giliardo Leite da Silva, chegou de Ibimirim há 18 dias atrás da pesca que José Alexandre diz estar acabando. “Pescador um dia tá aqui e outro dia tá no meio do mundo. É que nem cigano, só dá pra andar”, diz ele, com o sorriso tímido enquanto conserta a rede. Desde que chegou com a família, José Giliardo, de 22 anos, notou a escassez de peixe. Hoje, nem sai mais para colocar a rede no rio à noite. Não vale a pena.

Quem não desiste é o sergipano João Muniz, há 4 anos morando em Petrolândia. No fim de semana ele pega a caminhonete e sai pelas feiras de Sergipe vender os peixes que pesca e mais os que compra dos vizinhos. “A gente não tem emprego, daí tem que caçar um lugar pra sobreviver. Aperreado, mas dá”, explica o pescador de 55 anos. Quando sai pelas feiras, João Muniz junta 200 ou 300 kg de peixe congelado – desse total, ele mesmo pescou a metade.

Assim como os pescadores, quem vai todo dia ao rio é José Severino da Silva Filho, ex-pedreiro que há 17 anos chegou na vila depois de ter largado a mulher e os sete filhos em Ibimirim. A mulher ficou lá, os sete filhos o seguiram todos. Sentado na frente da casa pré-moldada onde mora, seu Pernambuco – como é conhecido –, de 75 anos, conta dos banhos diários que toma no rio. Não adianta encher a caixa d’água da casa: o mergulho no São Francisco é por opção – o resultado dos dois banhos é o mesmo: na vila dos pescadores não há água tratada.

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