Faz mais de um ano que voltamos da maior e mais fantástica viagem da nossa vida. Há um ano e uma semana aterrissávamos no Aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, voltando de Pernambuco, onde ficamos um mês percorrendo os dez municípios do estado banhados pelo São Francisco: Petrolina, Lagoa Grande, Santa Maria da Boa Vista, Orocó, Cabrobó, Belém do São Francisco, Itacuruba, Floresta, Petrolândia e Jatobá. Conhecemos ribeirinhos, visitamos lavouras, vimos as obras da transposição do rio e crescemos em 30 dias o que não tínhamos crescido em 4 anos de curso de Jornalismo.

Este blog foi nosso companheiro durante a viagem. Foi onde descarregamos nossas angústias, medos, deslumbramentos, relatos profissionais e todas as novidades que passaram a fazer parte da nossa vida. Conforme prevíamos, quando voltamos ele parou de ter razão de ser, e foi por isso que as atualizações tornaram-se raras até pararem por completo.

Esperávamos que, sem postagens, o blog deixasse de ser acessado. Nunca pretendemos deletá-lo, pois é uma fonte de pesquisa rica e pessoal para quem fizer uma viagem nos moldes da nossa ou simplesmente tiver curiosidade de saber um pouco mais sobre o que enfrentamos. Achamos que os últimos posts, em clima de despedida, e as datas de postagem deixariam claro que o blog tinha sido abandonado como veículo de comunicação.

Não foi o que aconteceu. Até hoje muitas das matérias ainda são comentadas e geram discussão. Todos os dias recebemos, no mínimo, 30 acessos. Não pretendíamos voltar a atualizar esse blog, mas diante do fato de que ele parece estar tendo uma sobrevida inesperada, é melhor que esclareçamos algumas coisas. A principal delas é que as informações contidas nas matérias estão desatualizadas, já que foram apuradas e publicadas há mais de um ano. Não temos planos de visitar o sertão de Pernambuco novamente, portanto dicas e conselhos de como fazer nosso trabalho não têm mais nenhuma validade.

Também tivemos alguns problemas com uma matéria sobre Belém do São Francisco. Vimo-nos na obrigação de tirar o post do ar, junto com os comentários, e pedimos desculpas às pessoas que se sentiram incomodadas com o texto publicado. Alguns cidadãos belenenses consideraram que distorcemos as informações ou não soubemos expô-las da maneira correta. Queremos deixar claro que não foi intencional.

Conforme dito acima, não pretendemos deletar esse blog. Mas queremos que os internautas que fizerem uso de nossas experiências e textos façam-no tendo em conta que tudo que está registrado no Às margens da transposição aconteceu há mais de um ano. Prova disso é que em uma das matérias falamos sobre a artesã Ana das Carrancas, uma das mais significativas das margens do São Francisco. Na época ela estava doente. Infelizmente, Ana faleceu no início de outubro.

Por último, gostaríamos de agradecer novamente a todos que nos ajudaram, de uma forma ou de outra. Na banca de apresentação do nosso Trabalho de Conclusão de Curso (motivo da realização dessa viagem e, por conseguinte, da existência do blog), realizada em 29/11/2007, tiramos a nota máxima.

Obrigada e até a próxima.

Caroline e Ticiani

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Bateu a saudade do blog. Quase 20 dias depois da nossa volta de Pernambuco não fizemos mais do que 5 posts. A Tici tá bastante atarefada por causa do crossmídia – fazer layout, bolar storyboard, montar os recursos, aprender flash… Como a parte que me cabe nesse latifúndio envolve menos trabalho braçal, resolvi tomar vergonha na cara de uma vez e pagar minha dívida com os leitores.

Acho que esse é meu último post. Agora, com a vida correndo normalmente e a rotina tomando conta de novo me toquei do quanto nossa estada franciscana foi diferente de tudo que vivi até hoje. Tínhamos aquele ritmo louco de trabalho e precisávamos chegar em várias pessoas todos os dias, fazer o mesmo discursinho (“oi, meu nome é caroline, sou estudante de Santa Catarina, blá, blá, blá”) e conseguir que elas falassem com a gente. E sabe que era bom? Isso é jornalismo. É nessa vida que estou entrando? Se for, vamos nessa.

Já falei aqui das nossas percepções das 10 cidades de Pernambuco banhadas pelo rio São Francisco. O negócio é mais ou menos o mesmo, não vou ficar repetindo o que já dissemos. Só uma coisa vou dizer de novo: o quanto nos animava ver o sucesso do blog. Chegamos a ter 430 visualizações em um dia e mesmo hoje, terça-feira, com o blog meio às moscas, foram 54. É a melhor recompensa pelo nosso trabalho. A melhor.

Obrigada, Zeca, pela orientação, assessoria de imprensa, puxões de orelha, correções e apoio incondicional. Obrigada, nossos amigos de perto e de longe, da faculdade e da infância, por estarem no MSN, no orkut, no e-mail, no telefone e sempre junto. Obrigada, às pessoas que nos ajudaram em Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Paraíba e Pernambuco. Obrigada, leitores sem rosto ou comments.

Muito obrigada aos que entregaram suas histórias e até choraram pra que pudéssemos encher nossos bloquinhos, gravador e máquinas fotográficas. E muito, muito, muito, muito obrigada às nossas famílias por terem nos aguentado, ajudado, financiado e atendido o telefone todas as noites, ouvido nossas lamúrias e choramingos e ainda assim dito “vai lá, estás no caminho certo, estamos orgulhosos de ti”, mesmo que as palavras nunca tenham sido pronunciadas e a saudade fosse enorme.

Quase um agradecimento de tese, hein? Bom, pra terminar aí embaixo vão links de outros blogs que nos citaram. Divirtam-se. 

Blog do Noblat

Jornal da Mídia

DVeras em Rede

De Olho na Capital

Coluna Extra 

matéria que o Coluna Extra fez sobre a gente

Calma. Não estamos em greve de posts nem esquecemos do blog. Talvez um pouco de preguiça combinada com a volta à realidade de nossas vidas em Florianópolis tenha nos afetado na demora a atualizar. Chegamos em casa na sexta passada, dia 5, depois de 7 horas de voo. Incrivelmente só trocamos de avião em Brasília; em Salvador e Guarulhos só fizemos escala. E em Brasília saímos de uma aeronave e logo entramos na outra. Se na vinda perdemos um dia inteiro por causa do caos aéreo na volta viemos bem tranquilas – por mais que o voo tenha atrasado pra sair de Petrolina, fazendo-nos imaginar perder as conexões de novo.

 

Na chegada a Floripa, às 11h30 da noite, nossos pais e irmãos nos esperavam no aeroporto. Juntamos as famílias e saímos pra conversar; depois foi cada uma pra sua casa, matar as saudades das nossas camas (que nunca pareceram tão convidativas) e dos chuveiros inigualáveis. A Keka já tinha nos dito que a volta a Florianópolis seria um baque, um choque. Que sentiríamos um vazio e uma vontade de sair correndo e voltar pro mundo. Eu senti isso depois que a casa ficou silenciosa e era hora de dormir – sozinha, depois de um mês de convivência diária com a Tici. Nos dias seguintes, conversando, descobrimos que as duas havíamos sentido mais ou menos a mesma estranheza.

 

O mar da Baía Norte não substitui o rio que nos acostumamos a encarar todo dia. O São Francisco nos acalmava e era a ele que recorríamos quando as idéias não vinham, as coisas não davam certo e os dias não rendiam. Azul, calmo e lindo como nenhum outro rio, o Velho Chico estava sempre ali, com sua monotonia sempre diversa que nos hipnotizava (como diria António Lobo Antunes).

 

Agora é colocar a cabeça no lugar e os neurônios pra trabalhar. Temos um TCC pra fazer – uma grande reportagem em texto e um produto crossmídia para internet, como vocês já devem estar carecas de saber – e nosso deadline é 21 de novembro. Parece muito perto mas longe ao mesmo tempo se olharmos pra trás e pensarmos o quanto se pode fazer em um mês.

 

Nos próximos dias ainda vamos postar mais algumas coisas e fazer cada uma o seu post pessoal de despedida. Não vamos mais ter tempo pra escrever ou coisas interessantes pra colocar no blog daqui pra frente, pois nosso dias serão tomados pela produção e redação dos dois produtos do TCC.

 

Queremos agradecer a todos que nos ajudaram, apoiaram e leram neste mês de tantas mudanças e crescimento. Ver as estatísticas do blog depois de um dia estafante, quando não queríamos mais saber de nada, muito menos escrever, sempre nos incentivava a domar as letrinhas mais uma vez, e outra, e outra, e outra…

 

Esperamos que vocês tenham gostado dessa viagem tanto quanto nós. Nosso mais sincero obrigado a todos e até a próxima.

= )

Chegamos a Petrolina ontem no fim da tarde. Depois de 8 horas de viagem, incluindo as paradas para almoço e novos vídeo-depoimentos sobre o rio, estávamos exaustas. Mas não ficamos entocadas no hotel. Queríamos aproveitar nossos diazinhos de folga para curtir e relaxar. O primeiro passo foi ir ao Bradesco falar com o gerente, amigo do meu pai. Precisávamos de uma indicação de oficina de confiança para levarmos o Chiquinho, que sofreu escoriações na luta contra a caatinga do sertão.

 

De lá, saímos direto pro shopping. Patricinhas em busca de compras? Não! Claro que não. Queríamos banho de cultura, cinema. Para nossa surpresa, a meia-entrada aqui custa R$ 3 (com direito a uma mini-pipoca) e estão em cartaz dois filmes: O homem que desafiou o diabo e O ultimato Bourne. Este eu já tinha visto antes de viajar e aquele nós duas nem sabíamos sobre o que se tratava. Apesar de correr o risco de assistir um filme ruim, optamos pelo brasileiro e não nos arrependemos! É mais um longa que retrata o sertão nordestino e mistura lendas da cultura local. Para quem curte regionalismos é uma boa pedida. Depois do cinema, uma voltinha pela cidade e cama! Estávamos cansadas e dormimos bem mais cedo do que de costume.

 

Hoje é dia de São Francisco de Assis e faz exatamente um mês que saímos de casa. Acordamos cedo, mandamos o Chiquinho pro pronto-socorro e estamos mofando no hotel. A expectativa (profissional) de encontrar alguma manifestação ao longo do rio foi por água abaixo. Ninguém fez nada – o que pessoalmente nos deixou muito feliz. Estamos cansadas de trabalhar. Queremos agora descansar, nos preparar para o retorno à rotina, encontrar amigos, familiares e namorado em Floripa. Depois pensamos no TCC, storyboard, flash, textos, fotos, legendas, infográficos…

 

Só em pensar que o trabalho tem que estar pronto até o dia 21 de novembro fico apavorada, assim

como todo mundo (eu acho). Como unir todo o material coletado neste mês? Ah! Falando nisso, esqueci de contar: ontem tivemos o primeiro feedback externo do blog. Quando chegamos a Orocó, fomos até o Sindicato dos Trabalhadores Rurais em busca de um depoimento do seu Landim. O depoimento ficou bem legal e assim que eu me animar, posto aqui. Na hora da despedida:

 

Landim – Eu já olhei na internet, a matéria minha e do padre.

Carol – E o que o senhor achou?

Landim – Gostei, gostei bastante. Parabéns e boa sorte com o trabalho.

 

Primeiro retorno e positivo, quer coisa melhor? Elogios de familiares e amigos é uma coisa, mas de um entrevistado é bem diferente.

 

Enfim, continuamos aqui no hotel… lendo, vendo emails, fuçando no orkut, falando no MSN. A preguiça é grande e a saudade de casa também. Ah! A vontade de tomar banho no Velho Chico! Mas sem o Chiquinho fica difícil. Aqui em Petrolina é como Floripa, para encontrar um ponto provável para banho precisa andar muito.

 

Daqui a pouco vamos buscá-lo, assim eu espero, porque ainda precisamos comprar as encomendas e os presentes. Amanhã nos despedimos do Chiquinho e de Pernambuco e enfrentamos o caos aéreo. A uma hora dessas, devemos estar no vôo 6185 com destino a Salvador. Depois paramos em Brasília, Guarulhos e, se tivermos sorte, às 22h35 pousamos na Ilha da Magia. Falando nisso, como anda o clima por aí?

Selo de not�ciasSe não houver um controle rigoroso da vazão retirada pelos canais dos eixos Leste e Norte o reservatório de Itaparica vai ficar abaixo do nível de água aceitável

 

A única usina hidrelétrica de Pernambuco corre o risco de ter sua geração de energia prejudicada pela transposição do rio São Francisco. A afirmação é do gerente da divisão regional da Usina Luiz Gonzaga Valdy Benigno dos Santos. O problema é que o reservatório de Itaparica é pequeno – possui 3,7 milhões de m3 de volume útil – e se a vazão retirada pelos canais do eixo Norte e Leste não for controlada a água acumulada na barragem será insuficiente.

“A transposição não interferiria na geração de energia, mas quem garante que a vazão retirada do rio vai ser mesmo só de 1%?”, contesta Valdy, citando o percentual que será desviado do São Francisco, alegado pelo governo, de 26 m3/s. O engenheiro mecânico, especialista em energia elétrica, explica que fiscalizar a vazão da água nos canais seria muito difícil e que a demanda nas cidades recebedoras vai aumentar nos períodos mais secos, justamente quando o nível de Itaparica estiver mais baixo.

Além disso, Valdy defende a revitalização antes da transposição. De todos os 168 afluentes do São Francisco 14 estão secos e muitos deles estão morrendo. “Tem que dar condição da água chegar até aqui, não é só tirar”, defende. Já houve secas nas quais a vazão do rio diminui para 700 m3/s, sendo a vazão média 2.800 m3/s.

 

Usina

A Luiz Gonzaga começou a ser planejada em 1975, durante o governo do militar Ernesto Geisel, para evitar uma falta de oferta de energia futura. A obra atrasou por dificuldades financeiras e o racionamento chegou, em 1987 – o que fez com que a usina fosse acelerada e concluída em 1988. Antes conhecida como Usina Hidrelétrica de Itaparica, ela tem capacidade de abastecer todo o estado de Pernambuco e gera 1.500 MW de potência.

Selo de not�ciasA rodovia divide o município de Jatobá em centro administrativo e vila de Itaparica. Um lado pobre, outro rico.

 

De um lado da rodovia BR-110 Jatobá, do outro, o Acampamento de Itaparica. Ao entrar à direita, uma cidade pouco desenvolvida, quase sem comércio, cuja economia é fundamentada no funcionalismo público. À esquerda, uma vila toda asfalta, com pouco lixo espalhado, jardins e praças lindos, casas grandes, um hospital, um clube de recreação, um bairro-modelo construído para os funcionários da Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco). O contraste entre o centro e o bairro é visível, mas não há rivalidades. Não mais.

Quando foi construído, em 1977, o acampamento era como um condomínio residencial sem mensalidades. Para um visitante entrar precisava se identificar e avisar o endereço desejado. Por meio de uma ligação no interfone, o porteiro contatava a família que liberava ou não a entrada. Além da segurança e da qualidade de vida, os moradores tinham também outros privilégios: não pagavam pela água e energia consumida, podiam aproveitar o clube, o hospital, as escolas próprias, o comércio. Não precisavam sair dali, se não quisessem.

Quem não trabalhava na construção da Usina de Itaparica não podia desfrutar destas vantagens. O que restava era viver da agricultura ou pesca na outra margem da rodovia. Muitos inclusive eram desempregados de todos os cantos do país em busca de uma vaga na Chesf. Até 1995, quando houve a emancipação do município, os habitantes de Jatobá eram discriminados e ignorados.

“Depois disso, tudo virou uma coisa só, a administração era a mesma e o acesso à vila teve que ficar mais fácil, não tem só funcionário da Chesf morando lá”, conta Silas Monteiro Pinto, 33, hoje chefe de Gabinete do prefeito de Jatobá. Silas mora na vila de Itaparica desde os 8 anos – seu pai era geotécnico, e lembra como era esbanjado dinheiro no início. Presente para as crianças no Natal, ovos de chocolate na Páscoa, educação de primeira, segurança exemplar. “A Chesf não poupava dinheiro”.

Teoricamente, com a emancipação, os setores de manutenção, educação, saúde e administração do acampamento passariam para responsabilidade do município. Mas não foi o que aconteceu. Apesar de não serem finalidades da empresa, alguns serviços públicos como saneamento, distribuição de água e energia e infra-estrutura continuaram sob o domínio da Chesf.

Atualmente, o prefeito Itomar Tolentino Varjão e a direção da empresa negociam na Justiça uma forma de municipalizar a administração da vila sem prejudicar o desenvolvimento de Jatobá, afinal, a receita da cidade continuará a mesma (R$ 800 mil), mas as despesas dobrarão. A proposta da prefeitura é uma administração conjunta durante 3 anos e depois, uma ajuda de custo: valor inferior para energia, empréstimos de máquinas para manutenção e royaltes da Usina Paulo AfonsoIV.

Jatobá, última cidade de Pernambuco banhada pelo rio São Francisco e última cidade da nossa viagem. De lá voltamos pra Petrolina devolver o carro e depois nos mandamos de volta a Floripa na sexta. Ô, saudade! Mas ainda temos trabalho pela frente. Hoje apuramos em Jatobá e amanhã voltaremos lá pra fazer mais uma entrevista, um vídeo e tirar umas fotos da cidade. Ainda estamos hospedadas em Petrolândia (faz tanto tempo que não escrevemos posts pessoais que o povo nem sabe mais onde a gente tá) porque Jatobá é muito pequena, não tem lugar bom pra ficar lá.

 

Eu e a Tici conversamos sobre o blog estar ultimamente com muito mais matérias que qualquer outra coisa e chegamos à conclusão que nossos posts impressionistas eram fruto da nossa falta de material. Agora as reportagens se acumulam, não temos mais tempo pra falar de nós. E também estamos nos acostumando com o Nordeste. Os jegues na rua, os bodes se atravessando (“O mundo é dos bodes” – disse a Tici hoje, muito acertadamente), as pessoas que não pedem licença, agradecem ou qualquer coisa do gênero, a comida seca, o dia que começa às 6h e termina às 17h, as músicas terríveis, o sotaque às vezes incompreensível, a poeira que entra por todos os poros, a não existência de bancas de jornal e revista.

 

Mas também nos acostumamos com o por-do-sol, esse espetáculo absurdamente lindo que se repete todo dia de um jeito diferente; as pessoas que vivem as mesmas vidas sofridas de seus pais, avós e bisavós e mesmo assim são felizes, sorridentes e sempre prontas pra abrirem o coração pra ti e te ajudar da maneira que for possível; o peixe frito, que é uma delícia; a calma, a tranqüilidade e a total falta de violência dessas cidades, contrariando tudo o que ouvimos antes de vir; os preços, que são todos baixos com exceção do combustível; as estradas, que são retas intermináveis e em bom estado.

 

Enfim, tá acabando. Mais de 2 mil km rodados – e as previsões iniciais dos 500 km, onde foram parar? Vamos sair de Petrolândia amanhã de tarde ou quarta de manhã e passaremos nas cidades do caminho pra pegar uns depoimentos sobre o rio (hoje a Tici se deu conta que temos vídeos de menos, daí vamos deixar essa última semana pra correr atrás de umas imagenzinhas legais de pessoas falando do Velho Chico) e passar nas prefeituras pra pegar umas informações brutas que faltaram (viu, Zeca? Não esquecemos de ti!).

 

Ah, nessa semana também vamos tirar umas fotos turísticas e comprar souvenires: chapeis de cangaceiro (um pra mim e um pro Zé), buchada de bode (pro tio Paulo), farinha de tapioca (pra Deus e o mundo, inscrições nos comments) e a Pitu enlatada, cachaça mui chique e bizarra! Outra coisa da lista de afazeres é dar uma geral no Chiquinho, que não aguentou o tranco e tá todo detonado, tadinho. E, finalmente, vamos tomar banho de rio! Sabe o que é olhar todo dia pra esse diabo desse rio mais azul e lindo do mundo e não dar tempo/temperatura/contexto social pra mergulhar nele? Ô, suplício!

 

Nesse último fim de semana ficamos de molho. O hotel aqui em Petrolândia é de frente pro lago de Itaparica (represamento do rio) – a vista é um negócio fantástico, e o vento também. Na sexta à noite pegamos no sono lendo cordel, as duas. No sábado escrevemos as matérias atrasadas da sexta à noite, quando pegamos no sono lendo cordel, as duas. Depois saímos dar uma volta pela cidade, que tão em festa de São Francisco aqui, comemorações a semana toda. Mas tava uma enxeção de saco e resolvemos vazar pra Jatobá, ver qual era. À noite fomos na festa (!) ver o show do Santana – que não, não é um guitarrista mexicano, mas um cantor tradicionalista daqui, vestido a caráter e tudo –, que tava legal, valeu a saída de casa. E o domingo… o domingo foi imprestável. Não fizemos nada (nada mesmo) o dia todo, e à noite ainda fomos na festa de novo (mas ontem tava podre).

 

LIÇÕES

Hoje é sempre o dia mais quente.

Bebidas – de cerveja a água mineral, passando pela coca e o suco – nunca estão geladas. Só o café.

Desista de achar um chuveiro igual ao da sua casa.

As baratas vêm do ralo. Cubra-os. Todos. E não esqueça do inseticida!

Calor também dá gripe.

Dedos do pé, por mais feios que fiquem, curam sozinhos uma hora ou outra.

Sorvetes da Kibom são insubstituíveis.

Só postos de gasolina aceitam Visa.

Comprar passagem da Ocean Air por telefone: haja paciência, e não dá certo.

Comprar passagem da Ocean Air pela internet: haja paciência, mas no final dá certo.

(Mas o lanche da Ocean Air é melhorzinho…)

Ai, que saudade da máquina de lavar roupa…

Viajar em dupla é complicado. Depois de um tempo vocês já falam igual, já pensam igual, já comem igual, já dizem os mesmos palavrões na mesma hora e têm as mesmas idéias de pauta (esse último é ruim).

Rádio não pega. Em um mês, conseguimos ouvir cinco músicas decentes: Don’t Cry, do Guns, Lanterna dos Afogados, dos Paralamas, Boa Sorte, da Vanessa da Matta e do Ben Harper e aquela última da Marisa Monte, a da novela. E as velhas do Jota Quest, mas essas não contam porque estão sempre no final.

Pernambucano dança bem.

A gente raramente sua.