Selo de notãiasEm Petrolina, o desvio de águas do São Francisco não preocupa os agricultores. A  cidade deve aos canais de irrigação o título de maior exportadora de frutas do Brasil

 

 

A opinião dos agricultores de Petrolina é de que a vazão do São Francisco está sendo desperdiçada no mar. Beneficiários do Projeto Nilo Coelho, criado nos anos 1980 para irrigar plantações de frutas, eles são herdeiros do maior sistema de fertilização de terras já feito até hoje com as águas do Velho Chico. Ou melhor, com as águas da barragem de Sobradinho, que represa o São Francisco na divisa entre Bahia e Pernambuco.

 

 

Reginaldo de Souza Gonçalves é um desses agricultores. As terras que possui pertenceram ao pai e ao avô antes de serem dele – no total, 20 hectares. Nesta soma está incluso o lote que faz parte do Projeto Nilo Coelho: 8,5 hectares de área irrigada com plantação de uva, uma das maiores culturas do município. (Diariamente, são exportadas cerca de 200 toneladas da fruta somente para Fortaleza, o maior consumidor nacional.) Os agricultores que fazem parte do projeto pagam uma taxa mensal pela irrigação. O valor inclui o preço da água – custo fixo mais R$ 120,00 por mil m3 – e a tarifa de manutenção. “Se não pagar, eles cortam na hora”, garante.

 

 

O Projeto Nilo Coelho leva água a 20 mil hectares através de um canal de 50 km de extensão que parte de Sobradinho. Nem se compara à transposição do Rio São Francisco, cuja soma dos dois eixos, o Norte e o Leste, equivale a 720 km de canais. Mas em Petrolina os agricultores não parecem se preocupar com a grandiosidade da obra. “Tem muita água que vai embora jogada fora no mar. Seria viável para o governo fazer a transposição, mas ele teria que fazer reservatórios também, pra conservar a água”, explica Reginaldo. O projeto do governo pretende desviar 26 m3/s de água, sendo a vazão garantida do São Francisco de 1.850 m3/s na foz.

 

 

Petrolina fica a 200 km do ponto de captação do Eixo Norte e a 300 km do ponto do Eixo Leste. Ambos estão localizados na descida do rio, depois que ele deixa a cidade em direção ao mar. Além disso, Petrolina fica a 40 km da barragem de Sobradinho – o maior lago artificial do mundo, com 4 mil km2 de área e capacidade para armazenar 34 bilhões de m3 de água. “Mesmo que não chova nas cabeceiras do rio, Sobradinho sempre tem água. Nunca falta água em Petrolina porque a gente está logo depois da barragem”, assegura outro agricultor, Gonçalo José dos Santos Filho. Plantador de manga, uva e principalmente goiaba, Gonçalo possui 22 hectares, sendo 15 irrigados dentro do Projeto Nilo Coelho. A terra ele herdou do pai. “Nasci dentro do projeto”.