Selo de not�ciasNada de cactos e calangos em Petrolina: sob o sol do semi-árido, em um regime de chuva de 700 mm por ano, a paisagem é tomada de manga, uva, goiaba, caju, acerola, banana, tomate…

 

É dia de colheita no lote de 10 hectares preenchido com mais de 600 mangueiras. Entre as árvores adultas e cheias de frutos maduros há as recém-plantadas que não passam de 1 metro. Os pés de manga – estas últimas das variedades Tommy e Keitt –, dispostos um ao lado do outro, abrigam o visitante da precipitação fora de época. “Chuva em setembro pra mim é novidade”, ri o agricultor Paulo Espinhara, que faz parte do projeto de irrigação Nilo Coelho há 14 anos.

Quando comprou o lote (com carência de 19 anos), em 1991, Paulo ainda era gerente de banco em Petrolina e não sabia o que fazer depois que se aposentasse. Vendo o quanto a cidade estava evoluindo por causa da irrigação, decidiu rumar para a agricultura. A plantação começou efetivamente dois anos depois, porque Paulo foi transferido para Recife logo depois do negócio. Depois que a esposa morreu, em 1999, ele esperou a missa de sétimo dia e voltou para Petrolina. No início, não entendia nada de campo.

Hoje, cada mangueira dá entre 250 e 300 kg de fruta por safra. O ciclo é anual e Paulo divide o lote a fim de colher uma vez a cada semestre. A melhor safra é a de agosto-novembro, por ser esse um período seco. A chuva é prejudicial para a manga; o ideal é que ela receba a maior quantidade possível de sol, o que faz com que ela adquira a cor vermelha que torna sua vendagem mais fácil no comércio.

Mas há que se ter cuidado, porque sol demais também é prejudicial e pode queimar a fruta. Para atrair a luminosidade sem torná-la excessiva e proteger de insetos, Paulo aplica nas mangas uma solução feita com 15 kg de cal dissolvida em 100 litros de água. Ao líquido acrescenta-se 300 ml de detergente e 300 ml de espalhante adesivo, que ajudam a fixar a solução na fruta, evitando que qualquer chuva a faça escorrer.

Depois de começada, uma plantação de manga leva 6 anos até dar retorno financeiro. “Para dar certo na agricultura, o cabra tem que agüentar. Agüentar e esperar”, explica Paulo. Hoje, todas as mangas do lote são vendidas para o mercado interno, empresas que depois as revendem para o exterior. Antes Paulo vendia para a Holanda, mas o negócio direto dá prejuízo para o pequeno produtor: as frutas são enviadas em consignação, há taxas portuárias a serem pagas e a burocracia envolvida faz com que o pagamento demore a chegar.

 

Fora de moda

Em outro lote, que também faz parte do Projeto Nilo Coelho, Paulo mantém plantações de acerola e goiaba. Mas no início era só manga. “Manga era a sensação, dava dinheiro e é menos trabalhoso que uva”, explica. Atualmente a fruta custa R$ 0,40 o kg – em julho estava R$ 1,15. Paulo afirma que a principal razão do baixo preço é o frio tardio em São Paulo.

A fruticultura da moda em Petrolina varia constantemente. A primeira delas foi o coco, abandonado por causa da queda vertiginosa do preço. Depois veio a banana, deixada de lado devido às muitas doenças a que está sujeita. Finalmente foi a vez da acerola, que tinha o problema de ser altamente perecível. “A coqueluche agora é a uva. Tem mecânico de oficina, médico plantando. Mas não sabem, daí quebram”, lamenta Paulo.

Cada colono do Projeto Nilo Coelho é livre para escolher em que cultura vai usar a água da irrigação. Além de manga, acerola, goiaba e uva, existem lotes com plantação de banana, coco, caju, melão, melancia, tomate e até pasto para gado. Mas a caatinga de Petrolina não corre o risco de ser tomada pelos animais: se depender da quantidade de plantações nos arredores da cidade, tão cedo ela não perde o título de maior exportadora de frutas do Brasil.

 

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