Selo de not�ciasMesmo impedida de trabalhar por causa de um derrame, Ana das Carrancas continua mantendo a tradição das peças de argila através das filhas

 

Ângela Aparecida de Lima aprendeu a fazer carrancas de argila com a mãe, que aprendeu com a mãe, que aprendeu com a mãe. A primeira dessas mães era uma índia do Piauí, acostumada a trabalhar com barro desde cedo. A segunda delas, Maria Leopoldina, trouxe a técnica consigo quando migrou tentando sair da miséria. Durante a viagem, deu à luz a filha, Ana Leopoldina, em Ouricuri, sertão pernambucano. O ano era 1923 e ninguém da família de mulheres artesãs poderia imaginar que, graças à tradição hereditária de mexer com barro, a menina um dia se tornaria Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco.

Ana Leopoldina Santos, mais conhecida como Ana das Carrancas, hoje tem 84 anos e mora em Petrolina. Não faz mais carrancas de argila – esculturas com formas humanas assustadoras que se punham nas proas dos barcos do Rio São Francisco para afastar os maus espíritos. A tradição ela passou às filhas Ângela e Maria da Cruz, cujas esculturas decoram o Centro de Artes Ana das Carrancas. O lugar é pequeno, com pátio interno, uma pequena loja e a oficina com os utensílios do trabalho. Por todos os lados, carrancas. Os preços variam, podendo chegar a R$ 150,00 de acordo com o tamanho.

Por serem facilmente quebráveis, as carrancas de argila nunca fizeram muito sucesso entre os barqueiros do São Francisco. Sua principal utilidade é a decoração – servem como enfeites, vasos de plantas, cinzeiros, fruteiras – e os principais compradores são turistas. “A pessoas daqui têm preconceito contra a argila. Elas não valorizam o que tem perto”, lamenta Ângela. Além da venda no Centro de Artes, as irmãs enviam as peças para lojas na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

Ana das Carrancas é considerada a artista mais popular do Vale do São Francisco. Há peças de sua autoria em vários lugares do mundo, inclusive em um museu do Canadá. Em novembro de 2005, ela recebeu a Ordem do Mérito Cultural do presidente Lula na categoria Cavaleiro. Nessa época já tinha sofrido o derrame que a impediu de continuar trabalhando e danificou sua fala. “Ela sempre foi humilde, nunca ligou muito para fama”, explica Ângela.

Fama que chegou em 1963, quando Ana começou a fazer as carrancas de argila. Ela havia se mudado para Petrolina em 1954. Estava casada com o segundo marido, cego desde o nascimento, e tinha duas filhas do primeiro casamento (Ângela nasceu depois). Com a técnica aprendida da mãe, Ana já fazia utensílios domésticos com argila, mas o dinheiro era pouco. Devota de São Francisco, certo dia foi até à margem do rio para pedir ajuda ao santo. Pediu que ele a fizesse achar uma saída para a pobreza.

Durante a reza, Ana levantou a cabeça e viu um barco com um pescador dentro. Havia uma carranca na proa e um teto de palha no convés. Ela reproduziu o barco em argila, com o teto e a carranca. Foi a primeira peça que fez com a figura que a tornou famosa, até aperfeiçoar a técnica a ponto de poder se dedicar exclusivamente às carrancas. O diferencial em relação aos outros escultores era exatamente o material: Ana era a única a usar argila.

Desde que começou a fazer as carrancas ela sempre usou o mesmo barro, retirado do São Francisco. Um dia, ao chegar à margem para recolher o material, foi impedida. Disseram que ela não podia tirar argila porque isso causaria o assoreamento do rio. Sem ter como trabalhar, foi até o prefeito e pediu que ele lhe desse um anzol para pescar e matar a fome, e que esse anzol seria o barro do rio. Sem ter como recusar, o prefeito deixou que Ana continuasse a recolher a argila.

Com o derrame em 2004, Ângela e Maria da Cruz assumiram o Centro de Artes, que, além de abrigar as peças mantém dois projetos sociais – oficinas de cerâmica e de xadrez abertas para qualquer pessoa. Além de perpetuar a tradição de fazer carrancas, as irmãs continuam esculpindo-as com os olhos vazados, como a mãe fazia em homenagem ao marido. No futuro, as irmãs pretendem construir um museu para expor as carrancas de Ana.

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