Selo de not�ciasO sonho de levar água ao sertão, acalentado desde os tempos de Dom Pedro II, se torna realidade em projetos ambiciosos como o Nilo Coelho e polêmicos como a transposição do Rio São Francisco.

 

Caatinga, calor, seca, casas de pau-a-pique, jegues puxando carroças, famílias itinerantes. Uma cena típica do sertão nordestino retratada em grandes obras literárias brasileiras como Vidas Secas de Graciliano Ramos, Os Sertões de Euclides da Cunha, Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e O Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, e, com certeza, não vista em Petrolina (PE). Os projetos de irrigação trouxeram para a cidade ‘cara’ de cerrado, campos verdes, urbanização e o título de maior cidade exportadora de frutas do país. Para encontrar a vegetação pobre e os rios secos é preciso andar muitos quilômetros nas longas e intermináveis retas das rodovias.

E é por um dessas estradas que se chega ao Projeto Nilo Coelho, um convênio entre a CODEVASF (Companhia do Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba) e o Distrito do Perímetro de Irrigação Senador Nilo Coelho, órgão responsável pela administração e organização do projeto. Com investimentos na ordem de US$ 200 milhões (datados de 1979) e a expectativa de estimular o potencial fruticultor da região foram construídos: duas Estações de Bombeamento Principal e mais 39 secundárias; 156 km de canais; 2,7 km de aquedutos; 700 km de tubos; 273 km de adutoras; 20 reservatórios; e 700 km de estradas de serviços. A captação d’água para a irrigação é feita no dique B da Barragem de Sobradinho (BA), com vazão estimada em 23,2 m3/s.

Hoje 1.936 pequenos produtores e 352 empresas dividem uma área de 18.592,75 hectares, cultivam dez tipos de frutas e cereais, produzem mais de 190 t/ha/ano e geram 90.622 empregos diretos e indiretos. Para o engenheiro agrônomo Rubens Coelho, professor da USP, projetos como o Nilo Coelho seriam alternativas mais sustentáveis e economicamente viáveis para promover o desenvolvimento dos municípios do semi-árido nordestino, comparando-os com as obras de transposição do rio São Francisco.

O projeto ganhou status de prioridade no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sob responsabilidade do Ministério da Integração Nacional, de Geddel Vieira Lima. Para levar água ao sertão nordestino serão 720 km de canais, distribuídos em dois eixos, conectados à bacia do Rio São Francisco beneficiando cinco estados: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. O canal Norte – que irá alcançar os rios Jaguaribe (Ceará), Piranhas (Paraíba) e Apodi (Rio Grande do Norte) – precisará de um bombeamento de água de 160 metros de altura. Já no canal Leste a força será mais elevada, 300 metros para a Paraíba e 500 metros para o agreste pernambucano.

O plano do governo é terminar as obras do eixo Leste ainda neste mandato e inaugurar uma parte do eixo Norte até 2010, o que inviabilizaria ao sucessor do presidente Lula interromper a obra. Para sanar o déficit hídrico da região serão captados 26 m3/s do fluxo de água contínuo do rio, dos quais 70% serão utilizados na agricultura irrigada e 30% em usos urbanos e industriais. A expectativa do Ministério da Integração Nacional é investir R$ 4,6 bilhões no projeto nos próximos três anos. Mesmo assim, o governo prevê R$ 6,6 bilhões dos recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para gastos com a obra.

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