Selo de not�ciasA comunidade de Vermelhos fica às margens do rio São Francisco, mas mal o conhece. Esquecidos pelo Governo Federal, os ribeirinhos começam a se informar graças a um projeto escolar.


Durante todo o dia só se via um carro e estava a passeio. Pela manhã, um caminhão cargueiro entrou na principal e única avenida da vila, mas logo pegou o retorno para a BR-428, tinha se enganado. As largas ruas são muito pouco utilizadas. O comércio, pouco movimentado. A igreja tem missa apenas uma vez por mês e o telefone do posto policial e de uma escola é o mesmo, um orelhão na calçada. O maior rio inteiramente nacional margeia o distrito, é usado para agricultura irrigada, pesca, lazer e transporte e, mesmo assim, parece que ninguém percebe o que o Velho Chico significa.

Com 8 mil habitantes, Vermelhos faz parte de Lagoa Grande e é esquecido pelo Governo Federal. Verbas para melhorias estruturais e projetos escolares só vêm da administração municipal e dos empresários regionais. Informações sobre a importância do rio São Francisco, sua revitalização e as obras da transposição só chegam através das rádios e televisões. Nada de trabalhos federais de conscientização ou explicação do projeto. Muitos dos ribeirinhos nem o conhecem.

A esperança de Sandra do Nascimento Amaral, diretora da Escola Municipal Prudente de Morais, é o potencial das crianças como conscientizadores em casa e na vizinhança. Há um ano e meio a escola optou por um trabalho de alerta quanto à transposição, à importância de preservar as matas ciliares e valorizar o rio São Francisco. No primeiro momento, foram incentivadas as pesquisas sobre o tema e realizadas palestras abertas a toda a comunidade com profissionais da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e CODEVASF (Companhia Hidro Elétrica dos Vales do São Francisco e Parnaíba), para mostrar pontos favoráveis e contrários à obra.

“A maioria das famílias daqui vivem ao redor do rio. Alguns trabalham na pesca, outros, com a agricultura irrigada e até começarmos este projeto ninguém respeitava as águas. Os ribeirinhos a usavam para lavar carros e caminhões, jogavam lixos e desmatavam a vegetação ciliar”, conta a diretora.

O conhecimento sobre o São Francisco cresceu na vila. Durante as comemorações de 7 de setembro e do aniversário de emancipação da cidade (16 de julho), a escola fez um desfile em que cada ala contava um pouco da história do rio. A última retratava a situação atual, a transposição, a revitalização e os impactos ambientais e econômicos da obra. Para o dia 4 de outubro, aniversário do santo, a diretora planeja uma programação especial.

As informações sobre a importância de cuidar do rio já foram difundidas. Os próximos passos do projeto são entender a obra e promover a discussão do tema entre a comunidade. Para isso, a escola faz mensalmente uma pesquisa de campo com os pais – apesar de não saber o número exato, Sandra garante que a maioria é contrária a transposição – e pretende levar um grupo de alunos para acompanhar o andamento das obras em Cabrobó.

Nas outras duas escolas municipais da cidade, nada se fala sobre a transposição. Na verdade, nem os professores sabem ao certo do que se trata o projeto. “Toda as informações que temos vimos nos telejornais”, diz a professora Maremildes Torres de Sá. Hoje secretária da maior escola de Lagoa Grande, a Arco-íris, Maremildes é um exemplo para as novas gerações. Com apenas 28 anos, concluiu o Ensino Médio, fez magistério, depois Pedagogia e agora faz uma Pós-Graduação. Além da jornada de quatro turnos na escola, trabalha como tutora do curso de Letras à distância oferecido pela Ulbra (Universidade Luterana no Brasil).

Em Vermelhos estudar é uma perspectiva para poucos e apenas 3% dos alunos que concluem o Ensino Médio partem para o Superior. Destes, a maioria escolhe os cursos de Letras ou Pedagogia, talvez pelo status, talvez por admiração. Caso raro no Brasil, os professores do distrito ainda são pessoas importantes e respeitadas pelos alunos e comunidade.