Selo de not�ciasTrês dos habitantes mais antigos resumem em suas histórias a história e a vida do povoado.

 

– Eu acho que eu tenho 85. E ele deve ter uns 84… Ei, quantos anos tu tem?

Dona Cândida balança os braços tentando chamar-lhe a atenção, mas seu Moisés é completamente surdo. Por fim, quando o cutuca ele a nota.

– Ei, quantos anos tu tem? – ela berra várias vezes.

88, ele responde sem hesitar quando finalmente entende a pergunta.

Ela ri com a boca sem dentes, esconde o rosto nas mãos enrugadas. Está envergonhada e surpreendida com a resposta.

– Ih, ele é mais velho que eu!

Casados desde 1941 (para responder, o mesmo processo de várias tentativas de perguntas frustradas seguidas de uma súbita resposta precisa), dona Cândida e seu Moisés Cardoso moram há 22 anos na casinha murada com o portão de ferro, em frente ao bar que toca forró no último volume para cliente nenhum. A rua é de terra, perpendicular à principal de Vermelhos, e sob o sol a pino do meio-dia não se vê ninguém.

Seu Moisés é o morador mais antigo. Dos 10 filhos, 4 estão no mundo. Sentado na cadeira macarrão (com armação de ferro e encostos trançados com fios de plástico), ele lembra da sua gente que mora no Mato Grosso, em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Piauí… Dona Cândida chora. “A gente recorda as coisas que aconteceram, fica pensando no que já foi. Deus sabe o que faz”.

Netos são tantos que seu Moisés nem sabe. Os bisnetos são 47 e há um tataraneto. “Já tá no fim da linha, já. Nem mais é parente”. A linha que começou graças a um velório: foi lá que o casal se conheceu. Na época dona Cândida estava comprometida com outro homem, mas o largou pra ficar com seu Moisés. O noivo abandonado foi embora para São Paulo.

Além de surdo, ele está quase cego. É a catarata, que já vem pegando dona Cândida também. O casal recebe dois salários mínimos de aposentadoria e é por isso que seu Moisés gosta do Lula: com esse dinheirinho nunca falta comida em casa. Mas quando foi vereador de Santa Maria da Boa Vista, de 1993 a 1997, (da qual Vermelhos era distrito), seu Moisés fazia maravilhas. “Arranjei um chão para o povo aqui. Quando um matava, um morria, eu mandava buscar o caixão”.

Seu Moisés é metido com política desde os 18 anos. Era PFL (hoje DEM), mas depois mudou para o PMDB. Quando foi eleito, fez 122 votos. Mas nunca fez muita coisa como vereador; tudo que ele tentava, o prefeito não aprovava. Naquela época, Vermelhos era mais perigoso, violento e tomado por matadores. Hoje tem até posto policial – com três PMs dentro. “Nem a polícia queria vir pra cá. Agora tão aqui à vontade”, ri.

Ele diz não ter sido rico. Só teve umas besteirinhas pra viver, mas acabou-se tudo. As histórias de fracassos econômicos – um negócio mal sucedido comeu-lhe R$ 10 mil, uma seca levou-lhe R$ 2 mil – vão se sucedendo sem que surjam culpados. É tudo assim porque Deus quer. Graças a Deus estamos vivos, graças a Deus estamos bem, graças a Deus temos nosso dinheirinho. Se perdemos tudo foi porque Deus quis.

Deus também está na ponta da língua de dona Angélica, outra das mais velhas moradoras de Vermelhos. De alguma forma, ela é parente de seu Moisés (além de vizinha, claro). Aos 82 anos, Maria Angélica da Conceição mora em uma casa repleta de imagens de papas, santos e padres, terços e rosários, flores de plástico empoeiradas, retratos de família. O concreto da parede está todo lascado e o gato sem nome não para de andar de um lado a outro da pequena sala. Impedida de caminhar e morando sozinha, as duas filhas-vizinhas dão-lhe assistência. “Antes só que mal acompanhada, né não? Tenho quem me ajude”.

Dona Angélica teve 14 filhos. Hoje tem 3. “Deus sabe o que é bom. Chorava que só, mas Deus sabe o que faz”. Ela adorava viajar: conheceu São Paulo, onde mora o filho, e até já tomou banho de mar em Santos. Vivia caminhando pelas redondezas, por Cabrobó e Curaçá, na outra margem do São Francisco. Mas ela gosta mesmo é de Vermelhos; São Paulo e as vizinhanças, só para visitar. “Aqui não falta água, não falta trabalho. Mas eu, minha filha, eu não faço nada”.

Criada na roça, dona Angélica cresceu trabalhando na plantação, cortando cana, lascando lenha. Com 35 anos e uma penca de bacuris pendurados na saia, o marido a deixou. Ele estava de malvadeza. Foi quando dona Angélica se auto-declarou viúva, condição que ostenta até hoje. “Mulher não pode ficar depravada, perder o marido e sair por aí”, defende. Os três filhos que sobraram lhe deram 6 netos e 2 bisnetos.

Ela não tem TV, nunca quis comprar. Mas o rádio é parceiro fiel há 30 anos, protegido da poeira por uma capa de tecido fino laranja desbotado. Ela o mostra com orgulho, assim como apresenta os santos do altar um por um. O de devoção é Santo Antônio, mesmo padroeiro da igrejinha de Vermelhos que ela ajudou a construir.

Com o gosto pela estrada e a devoção católica na alma, dona Angélica pôs na cabeça que o povoado precisava de uma igreja. Saiu por Pernambuco com uma comitiva para conseguir dinheiro – foram para Orocó, Santa Maria da Boa Vista, Ouricuri… chegaram até o Piauí. Ao fim da excursão, os recursos para a construção da igreja estavam arrecadados, mas não havia quem a construísse. Os homens de Vermelhos se recusaram. Dona Angélica convocou as mulheres da comunidade para levantar o prédio.

A igreja foi erguida com o trabalho feminino. “Viu? Os homens de Vermelhos não quiseram fazer a igreja, as mulheres fizeram”. Enquanto a construção não terminava, a imagem do padroeiro ficou guardada na casa de dona Angélica, seu santo de devoção e padroeiro de Vermelhos – Santo Antônio.

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