Selo de not�cias

Dividida em lotes para agricultores sem terra desde 1994, a Ilha do Pontal, no distrito de Vermelhos, abriga roças e lembranças do tempo dos jesuítas

 

O sol não dá trégua para os passageiros que Filó conduz. Com uma vara fincada na margem da Ilha do Pontal – segunda maior entre todas as ilhotas distribuídas nos quase 3 mil quilômetros do rio – ele afasta o barco para o cais do outro lado. A travessia dura menos de 4 minutos, mas o barulho do motor, que impede qualquer conversação, faz com que pareça mais tempo. Além de Filó, estão no barco duas crianças, três mulheres e seu Manuel e dona Divânia.

O casal mora em Vermelhos, onde o barco vai atracar, mas a roça da família está na ilha mesmo. Todo dia dona Divânia, de 53 anos, atravessa o rio São Francisco para trabalhar sozinha no lote que recebeu por fazer parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Seu Manuel, de 61 anos, é diabético e não pode ajudá-la a cuidar dos 5 hectares de uva. Os três filhos crescidos, que também moram em Vermelhos, têm suas próprias vidas.

Também há Jeanderson, de dez anos, que é hemofílico – um filho que na verdade é neto, mas foi registrado por seu Manuel e dona Divânia para preservar a mãe, grávida de um homem que nunca mais viu. Os últimos 9 dias Jeanderson passara no hospital em Petrolina recebendo medicação por causa de um tombo de bicicleta. Dona Divânia o acompanhou durante a internação e hoje era a primeira vez que ela ia para a roça depois de mais de uma semana afastada.

Cearense de nascimento, ela mora em Vermelhos desde 1983. O lote de terra pertence-lhe desde 1994, quando o governador Miguel Arraes comprou a Ilha do Pontal, que faz parte de Pernambuco, e a dividiu em 178 lotes. Os agricultores produzem cebola, banana, manga, goiaba, coco, uva. Mas a riqueza maior dos cerca de 300 moradores e dos vizinhos de Vermelhos é a igrejinha construída pelos índios e padres jesuítas, remanescente de um tempo em que os trukás eram os únicos donos da terra.

A igrejinha, de Nossa Senhora dos Remédios, é tão velha que ninguém sabe em que ano foi construída. Todos nasceram à sua sombra. “Nem os avós do meu marido sabem, quando eles viviam ela já tava aí”, sorri dona Divânia. Ao lado esquerdo da igreja, o cemitério onde ela quer ser enterrada. “Isso se eu morrer aqui, porque não quero dar trabalho pra ninguém”, acrescenta.

Na manhã de quinta-feira, Dona Divânia chegara às 9h no cais – uma espécie de praia de rio que os barcos usam para carregar e descarregar passageiros. Portava panelas e apetrechos para fazer o almoço, pois ia passar o dia inteiro na ilha. Enquanto esperava o barco que a levaria para a roça, encontrou dona Júlia que, assim como ela, mora em Vermelhos e possui um lote de terra na Ilha do Pontal.

Há algumas diferenças entre as duas amigas. A roça de dona Divânia fica numa linha reta partindo do cais de Vermelhos; a de dona Júlia fica na ponta da ilha, onde o rio sobe durante as cheias e arrasa a plantação. As duas desembarcam juntas no cais de dona Divânia, em frente à sua casa de farinha. Qualquer morador pode usar as instalações para moer sua própria mandioca, desde que deixe um prato de pó a cada 7 de farinha que fizer.

Dona Júlia se separa de dona Divânia e segue caminho até seu lote. Junto com ela vieram a neta Andréia, de 21 anos, e os bisnetos Natália, de 4, e Natan, de 3. Nas mãos, a senhora de 73 anos traz ramos de artemija (artemísia) que vai mandar para o filho em São Paulo fazer chá. “Ele trabalha com mecânica, fica muito tempo abaixado. Daí doi o pé da barriga”, explica. As ervas vão viajar para o Sudeste na sexta-feira, quando a sogra do filho for visitar o casal.

A Ilha do Pontal tem mais de 2 km de extensão e a caminhada até o lote da família leva cerca de 15 minutos. Quem mora lá é um dos filhos de Dona Júlia – ela tem mais 8: 6 que moram em São Paulo e 2 no interior de Pernambuco. No total, foram 15 bebês, mas 5 não vingaram e uma das filhas morreu assassinada em 2005. Ela também perdeu o marido, que sofrera um derrame, no ano passado.

Dona Júlia conhece São Paulo, mas gosta só para passear. A neta Andréia já morou lá, mas não gostou e preferiu voltar. De terras paulistas trouxe gírias e a bicicleta que usa para levar Natan e Natália. “Em toda Vermelhos só tem duas desse tipo”, fala com orgulho enquanto talha o coco recém colhido.