Lagoa Grande de grande não tem nada. À primeira vista nos apavoramos com a insignificância da cidade. Não nos passou confiança nenhuma, as pessoas tinham caras nada amistosas e ficamos com vontade de vazar na hora. Mas respiramos fundo e encaramos, e deixamos Lagoa Grande com um saldo super positivo.

Sabe aquela história de aprendizado, de quebrar o vidro da redoma, de crescer? Então, tem muito disso nesses três dias. Mas nosso TCC deu um upgrade fantástico. Ele pulou na nossa frente num letreiro de néon dizendo “ei, estou aqui, venham me apurar!”. Conhecemos as pessoas que queríamos conhecer quando planejamos essa viagem, os nordestinos esquecidos que vivem do São Francisco e não fazem a menor idéia da importância que o rio tem.

Nosso choque com Lagoa e nossa péssima primeira impressão da cidade (vide Um abraço de conforto) tem culpada conhecida: Petrolina. Fomos iludidas pela imagem que ela tentou nos passar de urbanizada e moderna e nos deixamos levar acreditando que as paradas vindouras seguiriam o mesmo estilo. E se não seguissem, que ao menos as coisas piorariam gradualmente e teríamos tempo de nos acostumar.

Resposta errada! Antes de embarcarmos sabíamos que as coisas seriam difíceis, que os hotéis não seriam tão agradáveis, que a comida seria indigesta, que as pessoas seriam potencialmente perigosas. Petrolina nos fez esquecer nossas reservas e recomendações, nos despreparou para o que viria. Fez-nos esquecer o que havíamos aprendido a lembrar.

Não é exagero. No primeiro dia em Lagoa não rendemos nada. Nada, nada, nada. Estávamos cabreiras, infelizes, nosso moral inexistia. Isso fez com que nos tocássemos: as coisas precisam acontecer, quer estejamos psicologicamente preparadas pra elas ou não. Colocamos a cabeça no lugar e começamos a trabalhar.

Trabalhamos tanto, falamos com tantas pessoas, vimos tantas coisas e sentimos tanta alegria, desespero e sede ao mesmo tempo que começamos a produzir em escala fordista. Agora, comparando nosso rendimento atual com o que conseguimos na primeira semana dá pra dizer que evoluímos. O choque do atraso de Lagoa acordou a gente da ilusão de Petrolina.

É isso que chamam crescer?

 

AMBIÇÃO

E nosso banho de rio, que ainda não rolou?

 

VOCABULÁRIO

Rubacão – mais uma variante da mistura de arroz com feijão (o tal do baião de dois)

 

LIÇÕES

Usar chinelo, tirar relógio e piercing, colocar as roupas mais simples, prender o cabelo, não usar óculos de sol.

Falar com as pessoas mais velhas de um povoado exige paciência. Prepare a voz para gritar e os ouvidos para tentar entender.

Estacionar na sombra, por mais que elas sejam raras.

Não há banheiro tão ruim que não possa surgir um pior. (Máxima facilmente adaptável a qualquer coisa.)

Bloqueador solar sempre mesmo.

Comida só industrializada.

Não adianta teimar: não existe nada mais ao sul do Brasil do que São Paulo. Santa Catarina? Hãn?