Não sei se já falamos em algum outro post, mas o Vale do São Francisco pernambucano é conhecido como Polígono da Maconha – uma das regiões mais perigosas do País. A primeira vez que ouvimos isso foi do Locatelli, nosso professor, depois que já estávamos trabalhando com a transposição há uns 4 meses. Desde lá, só temos recebido conselhos horripilantes e castradores – não deem carona, não dirijam depois das 6h, não parem na estrada sob hipótese alguma, não saiam do hotel à noite, sempre andem com o tanque cheio, não deem trela pra qualquer um, não confiem em ninguém, etc, etc, etc.

Desde as primeiras conversas sabíamos que as cidades mais violentas do caminho eram Orocó (10 mil habitantes), Cabrobó (30 mil), Belém de São Francisco (20 mil) e Floresta (30 mil). Hoje era dia de encarar duas dessas cidades e mais uma: sairíamos de Lagoa Grande, passaríamos por Santa Maria da Boa Vista e Orocó (pra ver qual é a dessas cidades, se tem hotel, se parecem muito perigosas) e depois chegaríamos a Cabrobó (no mesmo espírito de observação). Dependendo do que víssemos escolheríamos em qual parar.

Ok, a pergunta que não quer calar: se a próxima cidade que o Google Maps aponta é Santa Maria por que seguir direto até Cabrobó? Porque temos que estar nesta última amanhã cedinho pra participar do encontro de avaliação do mutirão de conscientização de base contra a transposição que os movimentos sociais fizeram essa semana por várias cidades do São Francisco. (A frase é comprida, mas é isso mesmo.) Como não queremos viajar de noite preferimos perder o dia de hoje e dormir em Cabrobó de sexta pra sábado. Aproveitamos então a viagem pra nos habituar com a tal perigosíssima Orocó e escolher o hotel em Santa Maria, pra quando voltássemos.

Vamos por partes, como diriam Jack O Estripador e a minha irmã. Santa Maria é uma cidade super movimentada, pelo menos perto das 11h. Muitos jovens na rua, muita gente caminhando, nas lojas, nas lanchonetes. Difícil acreditar que uma cidadezinha daquele tamanhinho tenha tantos habitantes – ou todos estavam fora de casa ao mesmo tempo. E conseguimos achar um trânsito mais caótico do que o de Petrolina. Mas o saldo foi positivo: depois de uma perguntadinha básica achamos um hotel pra ficar depois de domingo, e o dono é gaúcho!

Com a visita a Santa Maria, tocamos pra Orocó, o pesadelo dos nossos pais. Chegamos lá e vimos uma Vermelhos II: pessoas tranquilas, lojas desertas, olhares curiosos de quem nunca vê carro com placa de fora e mulher dirigindo. Impossível acreditar que toda aquela violência que nos falaram surja de uma cidade tão simples e normal. O melhor hotel não nos empolgou nem um pouco e fez-nos manter nosso plano inicial de não passar mais que um dia quando formos pra Orocó de verdade.

Finalmente seguimos pra Cabrobó, onde pautas pesadas nos esperam. Além do encontro dos movimentos sociais amanhã, temos o acampamento do Exército pra ver, mas nossa visita está marcada pro dia 19. E Exército é um negócio burocrático, nem vamos tentar antecipar a data com medo de mudarem de idéia quanto a nos deixarem ver o acampamento (e é por isso que vamos ficar só um dia em Cabrobó, pois teremos que voltar depois de qualquer jeito).

Em Cabrobó vimos na rodovia o hotel que nos foi recomendado. Demos entrada, deixamos nossas coisas e depois saímos pra conhecer a cidade. Mais surpresa: assim como Orocó, Cabrobó parece pacata e tranquila. Mas não se preocupem, leitores assustadiços! Não é porque não vimos perigo que vamos deixar de nos cuidar. Só temos a impressão que vamos passar menos sufoco do que em Lagoa Grande. Até porque achamos que toda essa segurança vem do intenso policiamento que estamos vendo. Já fomos paradas em 3 blitzes, daquelas pelas quais nenhum carro passa sem encostar. Além disso, tem o exército aí acampado. Não sabemos se os PMs são sempre assim ou se estão mostrando serviço porque traficantes mataram um policial a tiros no dia em que chegamos a Petrolina. Tomara que não!

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