Selo de notãiasOs movimentos sociais contrários à transposição se reúnem para definir as próximas ações. Toda pressa é pouca: quanto mais o tempo passa mais difícil se torna barrar o projeto

 

Depois de um dia inteiro de discussões, o Mutirão pela Defesa do Rio São Francisco e pela Convivência com o Semi-Árido finalmente decidiu as próximas ações do movimento. Elas envolvem o início dos trabalhos de base nas cidades pelas quais passará o Canal Norte da transposição (que chegará aos rios Jaguaribe-CE, Piranhas-PB e Apodi-RN), a continuidade da campanha contrária à obra, a agregação de mais pessoas e entidades e a fortificação dos movimentos indígenas. Os planos foram acertados na reunião do Mutirão, realizada na manhã e tarde do último sábado, 15/09, na Ilha da Assunção, pertencente à tribo truká.

 

O encontro fechou a semana de visitas a regiões por onde passarão os canais do eixo Leste da transposição (que cruza o agreste de Pernambuco até a Paraíba). Durante 5 dias, participantes da CPT (Comissão Pastoral da Terra), MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens), MPA (Movimento dos Pequenos Agricultores), CPP (Comissão Pastoral dos Pescadores) e representantes da tribo indígena truká percorreram 7 municípios considerados estratégicos: Curaçá e Abaré na Bahia; Floresta, Petrolândia, Sertânia e Ibimirim em Pernambuco; e Monteiro na Paraíba.

 

Os 7 grupos do mutirão eram formados por 5 pessoas cada um e tinham a missão de promover palestras, exibições de vídeo e conversas com as populações locais. As atividades serviam para preparar o terreno para ações posteriores e identificar possíveis lideranças. No encontro de sábado as equipes apresentaram um relatório com o contexto e a disposição dos municípios visitados e decidiram quais serão os próximos passos do movimento.

 

A principal decisão tomada foi a de realizar um pré-mutirão nas cidades do eixo Norte: uma equipe – formada por um representante do MPA, um do MAB, um do Projeto Articulação São Francisco Vivo e um indígena – percorrerá o caminho do canal para estabelecer contatos e destacar lideranças locais, facilitando a penetração dos grupos que vierem depois realizar o trabalho de base nas comunidades.

 

Na continuação da campanha contrária à transposição, os participantes do movimento irão à Romaria em Louvor ao Padre Cícero (de 30/10 a 02/11 em Juazeiro do Norte-CE); manterão o trabalho com as lideranças identificadas no mutirão do eixo Leste; tentarão o apoio de outros movimentos – MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, MMC (Movimento de Mulheres Camponesas), Conaq (Coordenação Nacional de Quilombos), CUT (Central Única dos Trabalhadores), Conlutas (Coordenação Nacional de Lutas) e ASAs (Articulação no Semi-Árido Brasileiro).

 

O movimento também vai elaborar uma carta-denúncia sobre a violação dos direitos humanos na região de construção do eixo Leste da transposição, em Floresta, onde o exército está acampado. De acordo com o grupo que trabalhava nesta região, está ocorrendo uma forte militarização nas proximidades da obra com a perda de liberdade dos cidadãos.

 

 

A celebração da luta

– Vamos lá, quem vai ser o primeiro grupo? – Samuel Britto Chagas, da CPT-BA, pergunta aos cerca de 30 participantes da reunião.

Ninguém quer iniciar a apresentação do relatório de atividades da semana. Um murmúrio geral toma conta da capelinha com bancos de madeira dispostos nas laterais, paralelos às paredes, nos quais as pessoas estão sentadas (ainda). Depois da mística inicial, com apresentações individuais, depoimentos sobre a semana de mutirões em tom de voz baixo, leitura de poesia e cantos, está na hora de começar o trabalho. O clima que era quieto e pesado, quase ritualístico, muda subitamente e todos falam alegres como se tivessem sido libertados. Muito da animação se deve aos gritos de São Francisco Vivo, terra e água, rio e povo! e Pátria livre, mereceremos! que encerraram a mística. No chão em frente aos bancos restou o São Francisco escrito com pedras. O primeiro O é um prato azul cheio de água e o pingo do I é feito com um cacto. Entre as letras de pedra cartazes do Comitê pela Revitalização do Rio São Francisco Contra a Transposição, um boné da La Vìa Campesina e uma bandeira do MAP.

 

– Você já tá aí mesmo! – grita para Samuel uma morena baixinha, integrante do mutirão de Curaçá, Bahia.

É a deixa.

– Pode ser Ibimirim? – pergunta ele, citando o próprio grupo.

Um não irrompe do fundo da igreja, incontestável. Os demais riem do caráter definitivo do monossílabo, enquanto Samuel e Ruben Siqueira, também da CPT-BA, tentam acalmar as ansiedades e dar início aos trabalhos. Por fim decide-se começar as apresentações de baixo para cima pelos caminhos do eixo Leste.

 

Os representantes dos grupos compartilham suas conclusões uns após os outros durante toda a manhã. Com o atraso no cronograma, cada um precisa fazer sua prédica em no máximo vinte minutos. Nem todos respeitam a regra, e a primeira parte do sábado se estende até as 12h30. A essa altura, grande parte dos ouvintes já escorregara dos bancos desconfortáveis para o chão e descalçara os pés.

 

Os temas mais frequentes da manhã foram a situação dos indígenas, as ações dos militares na área próxima às obras e a desinformação das populações. Alguns grupos foram recebidos em ambientes hostis de moradores favoráveis à transposição, ao contrário de outros – mas fossem quais fossem as opiniões, na maioria das vezes não eram fundamentadas e/ou seguiam a indicação ideológica do coronel local.

 

Pausa para o almoço. Todos saem aliviados por encontrar o sol e o almoço à espera. Arroz, feijão, macarrão, carne ensopada e saladas – as comidas quentes expostas em panelas que poderiam servir a um batalhão faminto. Depois da refeição, os coordenadores do movimento voltam à igreja para montar as conclusões do encontro da manhã e os demais estão liberados até à 1h30, quando a função recomeça. Recomeçaria, em tese, porque um atraso de uma hora impediu a pontualidade. O motivo foi a debandada geral dos participantes, que aproveitaram a folga depois do almoço e o sol quente do meio-dia para tomar banho no rio.

 

Quando os trabalhos finalmente recomeçam, o primeiro espaço é liberado para impressões dos mutirões – quem ainda não expôs suas experiências pessoais da semana tem a oportunidade de fazê-lo agora.

– A transposição só sai se a gente deixar, é ou não é?

– Éééé!

No datashow está projetada uma síntese para discussão do que foi dito durante a manhã (contexto regional, disposição do povo e das organizações, propostas). Dali saem as diretrizes que devem ser levadas em consideração nos próximos mutirões e s ações que o movimento vai realizar. O objetivo final é barrar a transposição.

 

A reunião termina incompleta. O que era para acabar às 5h o faz às 6h e sem avaliação final. Os participantes estão impacientes para ir embora, absortos e cansados. Mas as decisões foram todas tomadas. Por enquanto.

 

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