Selo de not�ciasLutar contra a transposição é mais do que proteger o rio São Francisco, é preservar a cultura e a identidade do povo Truká

 

Rio São Francisco, Velho Chico, Rio-mar, Rio dos Currais, Rio da Integração Nacional. Para os índios trukás, mais do que uma simples fonte de água, irrigação ou pesca. O Opará, como eles o chamam, está intimamente ligado à cultura e à identidade do povo. Junto com os elementos terra, lua, sol, água, matas e pássaros forma o Deus para quem rezam, pedem ajuda, agradecem.

Durante as batalhas contra os portugueses, nas retomadas e delimitações de áreas indígenas, nas brigas contra posseiros, na conquista dos direitos do povo, o São Francisco sempre cumpriu o papel de protetor e auxiliou a tribo. Agora na luta dos movimentos sociais contra o projeto do Governo Federal de transpor o rio, os trukás pretendem retribuir a ajuda. “Neste momento quem pede socorro é o rio, ele já fez muito para nós, é hora de a gente fazer alguma coisa por ele”, exclama o cacique da tribo Neguinho Truká, de 34 anos, soltando um longo suspiro.

Os 26 povos indígenas ao longo de todo o Vale do São Francisco estão dispostos a impedir as obras da transposição e acreditam fielmente nisto. Em junho, acamparam no canteiro de obras do Exército junto com alguns movimentos sociais, fecharam os canais que já tinham sido feitos no Eixo Norte e só saíram de lá com a construção embargada. Com as obras novamente em andamento, as tribos seguem para o próximo passo, retomar e delimitar um território por onde se planeja passar o canal, pois de acordo com a constituição de 1988 os direitos dos índios sobre suas terras são definidos enquanto direitos originários e permanentes, e as terras só podem sofrer alterações com o consenso da comunidade local.

Nas palavras do cacique “terra indígena é o que o índio diz que é indígena. Essa é terra é nossa e por aqui não passa nenhuma obra faraônica do governo”. A argumentação da tribo contra a transposição gira em torno da desinformação da população, das propagandas enganosas do governo que dizem que a água chegará a todos, do preço elevado da construção, da desapropriação de terras e da ausência de revitalização do rio. Os trukás apresentam como solução mais sustentável e econômica o projeto da ANA (Agência Nacional de Águas) “Atlas do Nordeste”, que possui estratégias alternativas de levar água para mais municípios com menos recursos. Vale a comparação custo/benefício: a transposição consumirá R$ 6,6 bilhões e promete chegar a 12 milhões de pessoas de 391 municípios de quatro estados (Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte). O custo dos projetos descentralizados do Atlas será de R$ 3,6 bilhões e atenderá um universo de 34 milhões de pessoas em mais de 1.250 municípios de nove estados do Nordeste e do norte de Minas Gerais.

Além de interromper a transposição e retomar a área, o acampamento de 2.000 trukás no terreno a 10 km do centro de Cabrobó (PE) servirá para abrigar 98 famílias de índios que moram na cidade por falta de terras nos 6.200 hectares da Ilha de Assunção, território truká demarcado. Na ilha nada de ocas, índios seminus, tupi-guarani, arco e flecha, caça e pesca. Os 4.200 índios vivem distribuídos em 25 aldeias, com 11 escolas, 10 postos de saúde e lavouras irrigadas. A economia é fundamentada na agricultura para subsistência e comércio, principalmente o cultivo de arroz: há 8 anos, os trukás são responsáveis por 75% da produção do grão em Pernambuco. Também são cultivados tomate, cebola, melancia, coco, fruta do conde e manga.

A tribo ainda preserva seus costumes. Todas as quartas e sábados é feito o toré, um ritual religioso de agradecimentos. Nas escolas, as crianças aprendem as lendas indígenas, a história do Brasil com a participação dos índios, a utilização das plantas medicinais e o relacionamento com os animais. Mas o ensino na ilha só vai até a 6ª série. Para concluir os estudos, os jovens vão para a cidade e acabam incorporando a cultura dos brancos. Eles usam sapatos, calças jeans, bonés, relógios, celulares e roupas de marca. Os trukás incentivam a formação e educação, mas poucos cursam o Ensino Superior por falta de recursos financeiros. A perspectiva da maioria é voltar para a ilha e trabalhar com a agricultura.

Quando questionado sobre o sistema de cotas das universidades, Neguinho Truká fica indignado. “Cotas é chamar a gente de incapaz. Nós índios também temos que passar pela fila como todos os outros. Não somos inferiores, isto é injusto.” A imagem do índio primitivo incomoda o cacique. A tribo já está incorporada ao sistema econômico da cidade, emprega alguns brancos nas lavouras, é independente e vive sem ajuda do governo.