Selo de notãias Desde junho, soldados do 2º Batalhão de Engenharia estão em Cabrobó para construir a primeira parte do eixo Norte da transposição do São Francisco

 

 

Arroz, feijão, macarrão, farofa e carne ensopada. O almoço no encontro dos movimentos sociais contrários à transposição, realizado no dia 15/09, e o dos militares responsáveis pela construção da primeira parte do eixo Norte da transposição é o mesmo. A diferença entre as duas refeições – além da opinião dos que se servem delas – é que o almoço dos participantes dos movimentos foi uma exceção; o dos militares é regra há pelo menos três meses.

 

Desde 4 de junho, quando os primeiros 50 homens do 2º BECnst (Batalhão de Engenharia de Construção), de Teresina, chegaram a Cabrobó para iniciar as medições topográficas, a transposição do rio São Francisco começou a tomar forma. Os militares são responsáveis pela construção do canal de captação do eixo Norte e da Barragem de Tucutu, que fazem parte do primeiro trecho da transposição do Rio São Francisco e são as únicas do canal Norte sob responsabilidade das Forças Armadas. As demais construções estão incluídas nos 14 lotes a serem licitados pelo governo, ainda na fase do edital.

 

O trabalho do exército está orçado em R$ 44 milhões e tem previsão para acabar em 24 meses – inicialmente, esta primeira fase terminaria em agosto de 2008. O principal atraso da obra foi causado pela demora na liberação pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) da área a ser desmatada para a construção do canal de captação. Na época, o órgão estava em greve. Os militares também pararam de trabalhar em agosto durante 15 dias, quando movimentos sociais invadiram o canteiro e acamparam ali.

 

“O cronograma atrasa em qualquer obra. Quando isso acontece, a gente acelera em outras etapas”, justifica o tenente João Oka, um dos engenheiros civis responsáveis pela execução da obra. O projeto foi desenhado na sede do 2º BECnst e é acompanhado em Cabrobó por três engenheiros. No total são 100 homens trabalhando, 70 na construção do canal e 30 na da barragem.

 

Esta última está mais atrasada por ter tido suas terras desapropriadas depois: enquanto a área do ponto de captação era de um proprietário só, a da barragem, cuja área inundada será de 360 hectares, tinha vários donos. Antes de as máquinas começarem a trabalhar, um biólogo vai ao local da obra e realiza um levantamento dos pontos de contaminação a serem eliminados (pocilgas, currais) e faz o resgate e identificação dos animais nativos encontrados no canteiro. Já foram removidos mais de 140.

 

QG

Entre soldados do BECnst, tropas de segurança e equipe de apoio, estão instalados às margens da BR-428 290 militares – e ainda há espaço para mais 110 homens. O acampamento fica em um posto de gasolina desativado, uma área de 2 hectares alugada pelo Exército cuja estrutura existente está sendo aproveitada. As instalações ainda são provisórias, em contêineres de alojamento e escritórios, e as definitivas apenas agora começaram a ser montadas.

 

Para quem passa na estrada, o acampamento do Exército parece outro canteiro de obras, cheio de buracos e construções, a 3 km do canal e 6 km da barragem. Os alojamentos e escritórios pré-fabricados estão em fase de montagem e também serão construídos um campo de futebol e uma quadra de vôlei. “A idéia é preparar o local para fazer com que os soldados saiam pouco, porque isso gera um impacto social na cidade”, argumenta o tenente e engenheiro João Oka.

 

No acampamento, a alvorada é às 5h; às 6h30 os homens já estão nas máquinas. Nas terças e quintas, dias de atividade física matinal, o dia começa mais cedo ainda. São 8 horas de trabalho diariamente, de segunda a sábado. No domingo a folga é geral, mas todos ficam de sobreaviso – o chamado QAP (quando acionado, pronto). Muitos dos militares deslocados para Cabrobó possuem curso de sobrevivência na caatinga e os turnos são de 25 dias de trabalho para 5 dias de folga.