As cidades estão começando a parecer todas iguais. As pessoas agem do mesmo jeito, nos fazem as mesmas perguntas, não sabem nada da transposição, têm suas vidas girando em torno das mesmas coisas – agricultura irrigada nas margens e ilhas do rio, pesca insipiente, barquinhos cortando as águas azuis. Está cada vez mais difícil achar pautas. Ontem, no nosso primeiro dia em Belém de São Francisco ficamos meio desesperadinhas por causa disso. Só descolamos uma pauta no final do dia (com barqueiros que fazem transporte de carga pelo rio), e ainda assim a Tici não ficou muito segura se o tema vai render.

 

Antes de sair de Cabrobó pedimos dica de hotel em Belém. Não sabíamos o que esperar (como sempre) e nem se a cidade, de 19 mil habitantes, tinha hotel decente (a dúvida eterna). Mas a dica era furada, ou melhor, o lugar que nos foi indicado não existia. Em compensação achamos o hotel mais barato de todos, é bem ajeitadinho e novo. O problema é que não tem frigobar e não serve café da manhã – de modo que tivemos que sair pra comprar pão, margarina, salame, leite…

 

Fomos no Cesvasf (Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco) procurar algum professor de história que pudesse nos dar uma idéia da importância do rio pra Belém, mas a única coisa que conseguimos foi marcar uma entrevista pra amanhã às 16h – o que já é melhor do que nada. Enquanto esperávamos a professora nos dar bola demos uma passada na biblioteca da faculdade. Eu lutava pra manter meus olhos abertos e ler a história do Lampião e a Tici dormia deitada no meu colo. Sim, estávamos acabadas.

 

Saímos dali e fomos dar uma meditada na frente do rio. Quando a coisa fica preta é pra lá que vamos porque o São Francisco é meio que um bálsamo, acalma a gente e nos ajuda a colocar as coisas em ordem. Sentamos na mureta do lado de fora – crianças, não façam isso em casa! – e de repente chegou um gurizinho pro nosso lado e começou a falar com a gente. Tinha uns 4 anos.

 

A mãe do guri estava perto – segundo a Tici, não tinha mais de 15 anos – e não parava de mandá-lo sair da mureta, mas a criança obviamente não obedecia. Até que ela pegou e puxou ele dali com uns sopapos e xingando sem parar. O guri começou a chorar desesperado e a mulher foi engrossando a fala cada vez mais, dizendo palavrões e mandando o filho se f**, que seria melhor que ele morresse afogado de uma vez. O guri não tinha mais do que 4 anos! Como tu fala isso pro teu filho de 4 anos?! Foi uma das piores experiências que eu tive até agora em Pernambuco, e acho q a Tici concorda comigo.