Selo de notãias

Um parque aquático e um bar no cais são opções para quem acha que o São Francisco não serve só para irrigação e pesca

 

É meio-dia de um sábado quente e ensolarado. No parque aquático Som das Águas, à beira do lago de Itaparica, no caminho do rio São Francisco, nenhum cliente. À visão de uma família que se aproxima, Denise de Alencar e Sá exclama:

– Chegou gente! Que milagre, graças a Deus!

 

Mas era alarme falso. Os visitantes são conhecidos de Denise e vieram conferir como ficou o parque, planejado durante 10 anos por ela e o marido Tadeu Sá e inaugurado em novembro do ano passado. De suas bocas só saem elogios à beleza do lugar – as três piscinas de água natural (escura porque tirada da represa), o chafariz seco, os dois escorregadores em construção, o chão de terra nua, as mesas de concreto sem guarda-sóis, o único pedalinho encalhado no meio das plantas.

 

“A gente investiu tanto… Queria que tivesse um retorno, não imediato, mas um retorno”, lamenta a ex-vice-prefeita, ex-vereadora e ex-secretária de turismo. Todo o dinheiro para a construção do parque, que ainda não está completamente pronto, veio de recursos próprios e o casal e seus três filhos se mantêm com o trabalho de Tadeu, que é advogado.

 

A entrada no parque é gratuita e o visitante só paga o que tiver consumido mais os 10% do garçom. Assim que as obras estiverem prontas, Denise e Tadeu pretendem cobrar ingresso. Mas a data para o término das construções ainda não existe. “Vai depender de Deus, porque só dá pra investir o que entrar”. Enquanto isso é grande o fluxo de curiosos, como os recém chegados.

 

Mais tarde, às 2h, esta mesma família vai visitar um outro lugar em Belém do São Francisco. Também fica às margens do lago de Itaparica, bem próximo do parque aquático: o bar de dona Stela e seu Lula, parada obrigatória de quem pega a balsa em direção à Bahia. Aberto das 6h às 18h todos os dias, o estabelecimento é herança do pai de seu Lula e preenche os dias do casal de aposentados, ambos com 61 anos.

 

Rodeados com os 60 pavões que dona Stela cria, cercados de gatos tentando roubar o peixe servido, os fregueses já foram mais numerosos do que o são hoje. Ainda assim, há dias em que o casal atende 200, 300 pessoas. Antes da inundação de Itaparica, em 1988, o movimento era intenso. Com a diminuição do número de balsas, causada pelos melhoramentos nas estradas da região, a quantidade de frequentadores também caiu.

 

Dona Stela é formada em pedagogia e deu aula durante 28 anos para a rede estadual de educação e por 10 anos no ensino superior. Formou os três filhos na faculdade (o último, que faz Direito, ainda está terminando) e agora não quer mais nada além da vida pacata do bar, localizado dentro da propriedade de 18 hectares da família. Não guarda dinheiro e nem quer guardar. Se acontecer alguma eventualidade, os filhos – que moram em Recife – a atenderão. “Não quero poupança. Se precisar de dinheiro, tem os meninos para me ajudar”, completa.

 

Em comum com o parque aquático vazio de Denise e Tadeu, o bar de dona Stela tem a proximidade com o rio. Nos dois casos é o São Francisco que traz os fregueses – uns para admirá-lo e usá-lo como meio de transporte, outros para refrescar-se em suas águas geladas. “Sempre digo que esse rio é meu, porque você chega, olha e vai embora, mas eu estou sempre aqui”, sorri dona Stela.

 

Anúncios