Selo de not�ciasA transposição do Rio São Francisco promete acabar com a sede do semi-árido levando água a rios no Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba

 

Enquanto um parecer do TCU (Tribunal de Contas da União) recomenda a paralisação das obras da transposição do Rio São Francisco, o Exército não para de trabalhar. Encarregados de construírem o canal de captação e aproximação do eixo Leste e a Barragem de Areias, os soldados do 3º BECnst (Batalhão de Engenharia de Construção) não são afetados por licitações, burocracia ou opiniões divergentes. Além da recomendação do TCU, que alega obscuridade na origem das verbas, a Odebrecht contesta na justiça a licitação do primeiro lote, o que impede os seguintes de terem seus editais publicados.

As obras também estão atrasadas. Assim como aconteceu no eixo Norte, a greve do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) retardou em mais de um mês o início da destruição da caatinga no canal e na barragem – primeira ação a ser executada. A previsão é que as obras sob responsabilidade do Exército estejam prontas em 3 anos, o triplo do necessário para terminar o ponto de captação e a Barragem de Tucutu (também sob responsabilidade dos militares) no eixo Norte, que tem o dobro do comprimento do Leste.

O canal Norte, que parte de Cabrobó, foi começado antes justamente por ser o maior: leva água aos rios Salgado, Jaguaribe (Ceará), Apodi (Rio Grande do Norte) e Piranhas-Açu (Rio Grande do Norte e Paraíba) por cerca de 400 km. O Leste, em Floresta, tem 220 km de extensão e vai até os rios Pajeú, Moxotó (Pernambuco) e Paraíba (Paraíba). A outorga da ANA (Agência Nacional de Águas) autoriza que os dois canais retirem, no total, 26 m3/s (17 m3/s em Cabrobó e 9 m3/s em Floresta) da vazão garantida do São Francisco, que é 1850 m3/s.

Quando a barragem de Sobradinho verter (época em que chove nas cabeceiras do rio, na Serra da Canastra, em Minas Gerais), a vazão máxima nos canais é 99 m3/s no Norte e 28 m3/s no Leste. Neste caso, o excedente da água da transposição pode ser utilizado para irrigação, criação de camarões ou qualquer outro uso. Quando o rio estiver baixo e os canais conduzirem os 26 m3/s tirados da vazão garantida por Sobradinho (número mínimo de m3/s que a usina precisa liberar para produzir energia), a água da transposição será usada somente para consumo humano e animal.

“A única maneira de garantir o abastecimento do Nordeste Setentrional é garantir uma fonte de água constante e segura” explica o engenheiro civil Gilmar Ferreira da Silva, coordenador dos trabalhos de campo do Ministério da Integração Nacional. Mas a água do São Francisco não pode ser consumida bruta. As cidades e povoados à beira dos canais vão ter que construir estações de tratamento de água. Além disso, atreladas ao projeto principal há 36 medidas sócio-ambientais para compensar os impactos causados pela transposição. “Nenhum ser humano vai ser prejudicado pelo projeto”, garante Gilmar.