Selo de not�ciasSem terra ou Bolsa Família, os pescadores de Petrolândia veem agora os peixes sumirem do lago de Itaparica

Tem o José que foi o primeiro a chegar, quando ainda não existia povoado e o dono do lote queria expulsar quem pisasse suas terras; o José que nasceu aqui, mas se mudou para Ibimirim e agora voltou; o José que veio do Sergipe; o José pedreiro e agricultor que escolheu uma vila de pescadores para morar e talvez morrer. Todos com o mesmo nome e endereço: a pequena vila de pescadores entre as Agrovilas 1 e 2 de Petrolândia, às margens do lago de Itaparica – uma das 4 barragens no leito do rio São Francisco.

A maioria das cerca de 55 famílias vivem da pesca. No fim da tarde, os homens saem com os barcos e colocam as redes no rio, que serão recolhidas no dia seguinte pela manhã. Mas o São Francisco não está para peixe. Na última terça, o pescador José Alexandre Filho, morador mais antigo da vila (está lá desde 1991), colocou na água 20 redes de 50 m cada. Recolheu 2 kg de peixe. “Acredito que essa atividade de pesca com rede tá acabando daqui a uns anos. Não tem mais peixe”, lamenta.

Outro José, o Giliardo Leite da Silva, chegou de Ibimirim há 18 dias atrás da pesca que José Alexandre diz estar acabando. “Pescador um dia tá aqui e outro dia tá no meio do mundo. É que nem cigano, só dá pra andar”, diz ele, com o sorriso tímido enquanto conserta a rede. Desde que chegou com a família, José Giliardo, de 22 anos, notou a escassez de peixe. Hoje, nem sai mais para colocar a rede no rio à noite. Não vale a pena.

Quem não desiste é o sergipano João Muniz, há 4 anos morando em Petrolândia. No fim de semana ele pega a caminhonete e sai pelas feiras de Sergipe vender os peixes que pesca e mais os que compra dos vizinhos. “A gente não tem emprego, daí tem que caçar um lugar pra sobreviver. Aperreado, mas dá”, explica o pescador de 55 anos. Quando sai pelas feiras, João Muniz junta 200 ou 300 kg de peixe congelado – desse total, ele mesmo pescou a metade.

Assim como os pescadores, quem vai todo dia ao rio é José Severino da Silva Filho, ex-pedreiro que há 17 anos chegou na vila depois de ter largado a mulher e os sete filhos em Ibimirim. A mulher ficou lá, os sete filhos o seguiram todos. Sentado na frente da casa pré-moldada onde mora, seu Pernambuco – como é conhecido –, de 75 anos, conta dos banhos diários que toma no rio. Não adianta encher a caixa d’água da casa: o mergulho no São Francisco é por opção – o resultado dos dois banhos é o mesmo: na vila dos pescadores não há água tratada.