Selo de not�ciasPor onde passarem, os canais e reservatórios dos eixos Norte e Leste vão ocupar as terras de milhares de sertanejos. Dentre os primeiros a sentirem isso estão os agricultores de Floresta

No canteiro de obras da Barragem de Areias, eixo Norte da transposição do São Francisco, há um trabalhador que se confunde com os soldados uniformizados do Exército. Ele também usa a camisa grossa camuflada típica dos militares, mas, ao contrário deles, não dirige caminhões ou máquinas que fazem terraplanagem. Seu Nezinho recolhe os galhos verdes de algaroba que vai levar para dar de comer aos bodes. A roupa oficial do Exército foi presente dos “meninos”. “Eles disseram ‘ó, essa camisa é pro senhor trabalhar embaixo do sol’”.

Nezinho, Eixo LesteOs “meninos” estão trabalhando diariamente no quintal de Manoel Domingos Filho, o seu Nezinho, desde o início da construção da barragem. A casa dele fica a 600 m da obra, e para começá-la o governo desapropriou 30 ha da propriedade – restaram-lhe cerca de 40. O preço pago foi R$ 70 mil. Com o dinheiro da indenização seu Nezinho comprou um carro e fez uma nova casa nas terras que sobraram. “Se fosse negociar para particular um chão assim sem água o preço é bem mais baixo. Ninguém quer comprar porque é um lugar sem vida”, conta seu Nezinho.

Aos 50 anos, ele mora com a esposa na propriedade onde os dois criam bodes, ovelhas, vacas. Estão ali, sozinhos, convivendo com as secas desde 1990. Agora seu Nezinho acha que as coisas vão melhorar. Quando os canais da transposição estiverem prontos ele quer aproveitar a irrigação para plantar coco, caju, pasto para os animais. Até uma estação de tratamento de água os militares disseram que vai ter. “Isso é uma parte da gente que a gente tem que dividir com a humanidade. Eu espero que não seja ruim nem pra nós nem pra quem vai receber água”, explica.

A uns 2 km de onde seu Nezinho recolhe os galhos de algaroba para os bodes, o pessoal do sindicato rural está reunido na casa de dona Helena Costa Sá. Assim que as obras da barragem avançarem, o barraco de chão de terra batida, paredes caiadas e cartazes pendurados do PT (Partido dos Trabalhadores) vai ser demolido. “Aqui onde a gente tá só vai dar pra passar de canoa, se Deus quiser!”, ri dona Helena. A área da casa também foi desapropriada, pouco mais de 20 hectares, e pelas terras foram pagos R$ 40 mil.

desapropriacao05.JPGCom o dinheiro, dona Helena comprou uma casa em Floresta e construiu outra nova nos quase 30 hectares que sobraram. Já dona Lindomar Ferraz Silva comprou um carro com os R$ 50 mil que recebeu pelos 30 hectares desapropriados. “Só é contra a transposição aquelas pessoas que nunca ficaram sem água”, defende ela.

A única que não está muito contente com as manobras indenizatórias do governo é dona Maria Hilda de Sá Leal. Pelos seus 27 hectares desapropriados para a construção do canal ela vai receber R$ 8.700. A primeira proposta era R$ 2.700, sob a alegação de que a terra de dona Maria Hilda era solo de cascalho sem nenhuma benfeitoria. Ela bateu o pé e não aceitou o preço inicial, até que vieram com a segunda proposta. Mas o dinheiro – que só vai chegar quando o inventário do marido ficar pronto – já está empenhado: dona Maria Hilda vai usá-lo para ajeitar a casa e o resto dividirá entre os 13 filhos.

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