Selo de notãias

Ele nasceu há muito tempo
O certo não sei dizer
Só sei que não reclama
Vendo tudo acontecer.
Quanto mais se ele falasse
Pra nós seria um desastre
Ao ouvir ele gemer.

Gemeria de tanta dor
De tanta aberração
Da violação do seu leito
Das dores da convulsão.
Quanto mais se ele falasse
Pediria que não cortasse
As veias do coração. 

São veias que na verdade
Cortam os estados nordestinos
Banhando suas fronteiras
Contente como menino.
Se mesmo nesse embalo
Cortasse as veias que falo
Qual seria nosso destino.

 

Não se pode falar em cultura nordestina sem falar em literatura de cordel – poesias com estrofes de sete versos e editadas em pequenos livros. Os cordelistas falam de lendas e heróis da região, contam a história das cidades e santos, anunciam o apocalipse com bom humor e leveza. Mantêm vivo o folclore do Nordeste e são o orgulho dos lugares onde vivem. José Luiz da Silva é um desses escritores: faz cordéis desde 1989 quando descobriu os materiais guardados do bisavô, também cordelista.

 

Já são mais de 38 livretos publicados por ele mesmo com temas que vão desde a história de Petrolândia até o caso do pai que cometeu um incesto sem saber. Agora Zé Luiz está escrevendo a biografia de São Francisco de Assis, padroeiro de Petrolândia. A inspiração vem de causos que as pessoas lhe contam ou que aconteceram com ele mesmo. “Já tive tanta perda nessa vida e continuo sorrindo, alegre. Muita gente não encara a vida assim, por isso não acha inspiração”, explica.

 

Zé Luiz escreve, monta, faz as gravuras da capa e imprime uma tiragem de 100 cordéis, que custam R$ 1. O sustento não vem dos livretos, mas do emprego público: ele trabalha há mais de 23 anos na prefeitura de Petrolândia, onde hoje é responsável pelo setor de cópias. “O apoio é muito pouco, a gente vai ficando chateado. Quase parei uma época”, conta.

 

Além dos cordéis de histórias, Zé Luiz escreve sob encomenda. No Dia das Mães, por exemplo, a diretora de uma escola da cidade pediu-lhe que fizesse um livreto em homenagem à data. Ou então empresas encomendam cordéis com propaganda. O último deles Zé Luiz fez para uma empresa de som automotivo – a tiragem foi de 600 unidades e ele recebeu R$ 600.

 

A poesia do início desta matéria está no cordel A veia da salvação, sobre a relação entre os sertanejos e o São Francisco e a degradação que o rio vem sofrendo. Este é o único dos 38 livretos que Zé Luiz dedica ao Velho Chico, mas todos eles falam em algum momento no rio. “É a nossa fonte maior. Boa parte da população vive dele. Deveria se preservar e não fazer o que se faz”, lamenta.

 

Leia mais trechos de cordéis