Jatobá, última cidade de Pernambuco banhada pelo rio São Francisco e última cidade da nossa viagem. De lá voltamos pra Petrolina devolver o carro e depois nos mandamos de volta a Floripa na sexta. Ô, saudade! Mas ainda temos trabalho pela frente. Hoje apuramos em Jatobá e amanhã voltaremos lá pra fazer mais uma entrevista, um vídeo e tirar umas fotos da cidade. Ainda estamos hospedadas em Petrolândia (faz tanto tempo que não escrevemos posts pessoais que o povo nem sabe mais onde a gente tá) porque Jatobá é muito pequena, não tem lugar bom pra ficar lá.

 

Eu e a Tici conversamos sobre o blog estar ultimamente com muito mais matérias que qualquer outra coisa e chegamos à conclusão que nossos posts impressionistas eram fruto da nossa falta de material. Agora as reportagens se acumulam, não temos mais tempo pra falar de nós. E também estamos nos acostumando com o Nordeste. Os jegues na rua, os bodes se atravessando (“O mundo é dos bodes” – disse a Tici hoje, muito acertadamente), as pessoas que não pedem licença, agradecem ou qualquer coisa do gênero, a comida seca, o dia que começa às 6h e termina às 17h, as músicas terríveis, o sotaque às vezes incompreensível, a poeira que entra por todos os poros, a não existência de bancas de jornal e revista.

 

Mas também nos acostumamos com o por-do-sol, esse espetáculo absurdamente lindo que se repete todo dia de um jeito diferente; as pessoas que vivem as mesmas vidas sofridas de seus pais, avós e bisavós e mesmo assim são felizes, sorridentes e sempre prontas pra abrirem o coração pra ti e te ajudar da maneira que for possível; o peixe frito, que é uma delícia; a calma, a tranqüilidade e a total falta de violência dessas cidades, contrariando tudo o que ouvimos antes de vir; os preços, que são todos baixos com exceção do combustível; as estradas, que são retas intermináveis e em bom estado.

 

Enfim, tá acabando. Mais de 2 mil km rodados – e as previsões iniciais dos 500 km, onde foram parar? Vamos sair de Petrolândia amanhã de tarde ou quarta de manhã e passaremos nas cidades do caminho pra pegar uns depoimentos sobre o rio (hoje a Tici se deu conta que temos vídeos de menos, daí vamos deixar essa última semana pra correr atrás de umas imagenzinhas legais de pessoas falando do Velho Chico) e passar nas prefeituras pra pegar umas informações brutas que faltaram (viu, Zeca? Não esquecemos de ti!).

 

Ah, nessa semana também vamos tirar umas fotos turísticas e comprar souvenires: chapeis de cangaceiro (um pra mim e um pro Zé), buchada de bode (pro tio Paulo), farinha de tapioca (pra Deus e o mundo, inscrições nos comments) e a Pitu enlatada, cachaça mui chique e bizarra! Outra coisa da lista de afazeres é dar uma geral no Chiquinho, que não aguentou o tranco e tá todo detonado, tadinho. E, finalmente, vamos tomar banho de rio! Sabe o que é olhar todo dia pra esse diabo desse rio mais azul e lindo do mundo e não dar tempo/temperatura/contexto social pra mergulhar nele? Ô, suplício!

 

Nesse último fim de semana ficamos de molho. O hotel aqui em Petrolândia é de frente pro lago de Itaparica (represamento do rio) – a vista é um negócio fantástico, e o vento também. Na sexta à noite pegamos no sono lendo cordel, as duas. No sábado escrevemos as matérias atrasadas da sexta à noite, quando pegamos no sono lendo cordel, as duas. Depois saímos dar uma volta pela cidade, que tão em festa de São Francisco aqui, comemorações a semana toda. Mas tava uma enxeção de saco e resolvemos vazar pra Jatobá, ver qual era. À noite fomos na festa (!) ver o show do Santana – que não, não é um guitarrista mexicano, mas um cantor tradicionalista daqui, vestido a caráter e tudo –, que tava legal, valeu a saída de casa. E o domingo… o domingo foi imprestável. Não fizemos nada (nada mesmo) o dia todo, e à noite ainda fomos na festa de novo (mas ontem tava podre).

 

LIÇÕES

Hoje é sempre o dia mais quente.

Bebidas – de cerveja a água mineral, passando pela coca e o suco – nunca estão geladas. Só o café.

Desista de achar um chuveiro igual ao da sua casa.

As baratas vêm do ralo. Cubra-os. Todos. E não esqueça do inseticida!

Calor também dá gripe.

Dedos do pé, por mais feios que fiquem, curam sozinhos uma hora ou outra.

Sorvetes da Kibom são insubstituíveis.

Só postos de gasolina aceitam Visa.

Comprar passagem da Ocean Air por telefone: haja paciência, e não dá certo.

Comprar passagem da Ocean Air pela internet: haja paciência, mas no final dá certo.

(Mas o lanche da Ocean Air é melhorzinho…)

Ai, que saudade da máquina de lavar roupa…

Viajar em dupla é complicado. Depois de um tempo vocês já falam igual, já pensam igual, já comem igual, já dizem os mesmos palavrões na mesma hora e têm as mesmas idéias de pauta (esse último é ruim).

Rádio não pega. Em um mês, conseguimos ouvir cinco músicas decentes: Don’t Cry, do Guns, Lanterna dos Afogados, dos Paralamas, Boa Sorte, da Vanessa da Matta e do Ben Harper e aquela última da Marisa Monte, a da novela. E as velhas do Jota Quest, mas essas não contam porque estão sempre no final.

Pernambucano dança bem.

A gente raramente sua.

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