Selo de not�ciasA rodovia divide o município de Jatobá em centro administrativo e vila de Itaparica. Um lado pobre, outro rico.

 

De um lado da rodovia BR-110 Jatobá, do outro, o Acampamento de Itaparica. Ao entrar à direita, uma cidade pouco desenvolvida, quase sem comércio, cuja economia é fundamentada no funcionalismo público. À esquerda, uma vila toda asfalta, com pouco lixo espalhado, jardins e praças lindos, casas grandes, um hospital, um clube de recreação, um bairro-modelo construído para os funcionários da Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco). O contraste entre o centro e o bairro é visível, mas não há rivalidades. Não mais.

Quando foi construído, em 1977, o acampamento era como um condomínio residencial sem mensalidades. Para um visitante entrar precisava se identificar e avisar o endereço desejado. Por meio de uma ligação no interfone, o porteiro contatava a família que liberava ou não a entrada. Além da segurança e da qualidade de vida, os moradores tinham também outros privilégios: não pagavam pela água e energia consumida, podiam aproveitar o clube, o hospital, as escolas próprias, o comércio. Não precisavam sair dali, se não quisessem.

Quem não trabalhava na construção da Usina de Itaparica não podia desfrutar destas vantagens. O que restava era viver da agricultura ou pesca na outra margem da rodovia. Muitos inclusive eram desempregados de todos os cantos do país em busca de uma vaga na Chesf. Até 1995, quando houve a emancipação do município, os habitantes de Jatobá eram discriminados e ignorados.

“Depois disso, tudo virou uma coisa só, a administração era a mesma e o acesso à vila teve que ficar mais fácil, não tem só funcionário da Chesf morando lá”, conta Silas Monteiro Pinto, 33, hoje chefe de Gabinete do prefeito de Jatobá. Silas mora na vila de Itaparica desde os 8 anos – seu pai era geotécnico, e lembra como era esbanjado dinheiro no início. Presente para as crianças no Natal, ovos de chocolate na Páscoa, educação de primeira, segurança exemplar. “A Chesf não poupava dinheiro”.

Teoricamente, com a emancipação, os setores de manutenção, educação, saúde e administração do acampamento passariam para responsabilidade do município. Mas não foi o que aconteceu. Apesar de não serem finalidades da empresa, alguns serviços públicos como saneamento, distribuição de água e energia e infra-estrutura continuaram sob o domínio da Chesf.

Atualmente, o prefeito Itomar Tolentino Varjão e a direção da empresa negociam na Justiça uma forma de municipalizar a administração da vila sem prejudicar o desenvolvimento de Jatobá, afinal, a receita da cidade continuará a mesma (R$ 800 mil), mas as despesas dobrarão. A proposta da prefeitura é uma administração conjunta durante 3 anos e depois, uma ajuda de custo: valor inferior para energia, empréstimos de máquinas para manutenção e royaltes da Usina Paulo AfonsoIV.