Petrolina


Chegamos a Petrolina ontem no fim da tarde. Depois de 8 horas de viagem, incluindo as paradas para almoço e novos vídeo-depoimentos sobre o rio, estávamos exaustas. Mas não ficamos entocadas no hotel. Queríamos aproveitar nossos diazinhos de folga para curtir e relaxar. O primeiro passo foi ir ao Bradesco falar com o gerente, amigo do meu pai. Precisávamos de uma indicação de oficina de confiança para levarmos o Chiquinho, que sofreu escoriações na luta contra a caatinga do sertão.

 

De lá, saímos direto pro shopping. Patricinhas em busca de compras? Não! Claro que não. Queríamos banho de cultura, cinema. Para nossa surpresa, a meia-entrada aqui custa R$ 3 (com direito a uma mini-pipoca) e estão em cartaz dois filmes: O homem que desafiou o diabo e O ultimato Bourne. Este eu já tinha visto antes de viajar e aquele nós duas nem sabíamos sobre o que se tratava. Apesar de correr o risco de assistir um filme ruim, optamos pelo brasileiro e não nos arrependemos! É mais um longa que retrata o sertão nordestino e mistura lendas da cultura local. Para quem curte regionalismos é uma boa pedida. Depois do cinema, uma voltinha pela cidade e cama! Estávamos cansadas e dormimos bem mais cedo do que de costume.

 

Hoje é dia de São Francisco de Assis e faz exatamente um mês que saímos de casa. Acordamos cedo, mandamos o Chiquinho pro pronto-socorro e estamos mofando no hotel. A expectativa (profissional) de encontrar alguma manifestação ao longo do rio foi por água abaixo. Ninguém fez nada – o que pessoalmente nos deixou muito feliz. Estamos cansadas de trabalhar. Queremos agora descansar, nos preparar para o retorno à rotina, encontrar amigos, familiares e namorado em Floripa. Depois pensamos no TCC, storyboard, flash, textos, fotos, legendas, infográficos…

 

Só em pensar que o trabalho tem que estar pronto até o dia 21 de novembro fico apavorada, assim

como todo mundo (eu acho). Como unir todo o material coletado neste mês? Ah! Falando nisso, esqueci de contar: ontem tivemos o primeiro feedback externo do blog. Quando chegamos a Orocó, fomos até o Sindicato dos Trabalhadores Rurais em busca de um depoimento do seu Landim. O depoimento ficou bem legal e assim que eu me animar, posto aqui. Na hora da despedida:

 

Landim – Eu já olhei na internet, a matéria minha e do padre.

Carol – E o que o senhor achou?

Landim – Gostei, gostei bastante. Parabéns e boa sorte com o trabalho.

 

Primeiro retorno e positivo, quer coisa melhor? Elogios de familiares e amigos é uma coisa, mas de um entrevistado é bem diferente.

 

Enfim, continuamos aqui no hotel… lendo, vendo emails, fuçando no orkut, falando no MSN. A preguiça é grande e a saudade de casa também. Ah! A vontade de tomar banho no Velho Chico! Mas sem o Chiquinho fica difícil. Aqui em Petrolina é como Floripa, para encontrar um ponto provável para banho precisa andar muito.

 

Daqui a pouco vamos buscá-lo, assim eu espero, porque ainda precisamos comprar as encomendas e os presentes. Amanhã nos despedimos do Chiquinho e de Pernambuco e enfrentamos o caos aéreo. A uma hora dessas, devemos estar no vôo 6185 com destino a Salvador. Depois paramos em Brasília, Guarulhos e, se tivermos sorte, às 22h35 pousamos na Ilha da Magia. Falando nisso, como anda o clima por aí?

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Nós experimentamos a típica tapioca nordestina, gostamos, comemos todos os dias que pudemos e agora resolvemos ensinar como faz. É bem simples e rápido.

Você pode comprar a farinha de tapioca pronta no mercado e usar a criatividade para recheá-la. Com os ingredientes em mãos, coloque a farinha na frigideira como se fosse fazer uma panqueca, quando a tapioca estiver desgrudando da panela, vire-a. Espere um tempinho e aí é só rechear, dobrar e comer. Bom apetite!

(Esta aí do vídeo é de leite condensado.)

Selo de not�ciasO sonho de levar água ao sertão, acalentado desde os tempos de Dom Pedro II, se torna realidade em projetos ambiciosos como o Nilo Coelho e polêmicos como a transposição do Rio São Francisco.

 

Caatinga, calor, seca, casas de pau-a-pique, jegues puxando carroças, famílias itinerantes. Uma cena típica do sertão nordestino retratada em grandes obras literárias brasileiras como Vidas Secas de Graciliano Ramos, Os Sertões de Euclides da Cunha, Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto e O Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, e, com certeza, não vista em Petrolina (PE). Os projetos de irrigação trouxeram para a cidade ‘cara’ de cerrado, campos verdes, urbanização e o título de maior cidade exportadora de frutas do país. Para encontrar a vegetação pobre e os rios secos é preciso andar muitos quilômetros nas longas e intermináveis retas das rodovias.

E é por um dessas estradas que se chega ao Projeto Nilo Coelho, um convênio entre a CODEVASF (Companhia do Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba) e o Distrito do Perímetro de Irrigação Senador Nilo Coelho, órgão responsável pela administração e organização do projeto. Com investimentos na ordem de US$ 200 milhões (datados de 1979) e a expectativa de estimular o potencial fruticultor da região foram construídos: duas Estações de Bombeamento Principal e mais 39 secundárias; 156 km de canais; 2,7 km de aquedutos; 700 km de tubos; 273 km de adutoras; 20 reservatórios; e 700 km de estradas de serviços. A captação d’água para a irrigação é feita no dique B da Barragem de Sobradinho (BA), com vazão estimada em 23,2 m3/s.

Hoje 1.936 pequenos produtores e 352 empresas dividem uma área de 18.592,75 hectares, cultivam dez tipos de frutas e cereais, produzem mais de 190 t/ha/ano e geram 90.622 empregos diretos e indiretos. Para o engenheiro agrônomo Rubens Coelho, professor da USP, projetos como o Nilo Coelho seriam alternativas mais sustentáveis e economicamente viáveis para promover o desenvolvimento dos municípios do semi-árido nordestino, comparando-os com as obras de transposição do rio São Francisco.

O projeto ganhou status de prioridade no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sob responsabilidade do Ministério da Integração Nacional, de Geddel Vieira Lima. Para levar água ao sertão nordestino serão 720 km de canais, distribuídos em dois eixos, conectados à bacia do Rio São Francisco beneficiando cinco estados: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas. O canal Norte – que irá alcançar os rios Jaguaribe (Ceará), Piranhas (Paraíba) e Apodi (Rio Grande do Norte) – precisará de um bombeamento de água de 160 metros de altura. Já no canal Leste a força será mais elevada, 300 metros para a Paraíba e 500 metros para o agreste pernambucano.

O plano do governo é terminar as obras do eixo Leste ainda neste mandato e inaugurar uma parte do eixo Norte até 2010, o que inviabilizaria ao sucessor do presidente Lula interromper a obra. Para sanar o déficit hídrico da região serão captados 26 m3/s do fluxo de água contínuo do rio, dos quais 70% serão utilizados na agricultura irrigada e 30% em usos urbanos e industriais. A expectativa do Ministério da Integração Nacional é investir R$ 4,6 bilhões no projeto nos próximos três anos. Mesmo assim, o governo prevê R$ 6,6 bilhões dos recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) para gastos com a obra.

Hoje é nossa última noite aqui. Ou melhor, é nossa última noite em Petrolina durante a primeira parte da viagem. Voltaremos pra cá pra devolver o carro. Aliás, esquecemos de avisar nos posts passados e várias (vááááááárias) pessoas vieram nos perguntar: sim, estamos motorizadas desde as 4h da quinta-feira. Nosso parceiro de um mês é o Chiquinho, um simpático Celta prata sem direção hidráulica e com o acelerador mais pesado da paróquia.

Hoje de manhã fomos à cata de contatos na CODEVASF e no Distrito – órgãos com os quais precisávamos falar antes de deixar Petrolina. A CODEVASF é o braço do Ministério da Integração aqui no São Francisco e a única superintendência deles em Pernambuco fica em Petrolina. O Distrito é quem administra o Projeto Nilo Coelho, aquele de irrigação que tem absorvido nossos dias. Conseguimos ir aos dois lugares. Ainda passamos no Rotary e compramos sabão e água. (Hoje foi o primeiro dia em que fizemos três refeições de verdade, café da manhã, almoço e janta.)

Por causa da CODEVASF e do Distrito tivemos que atrasar nossa saída de Petrolina. (O 7 de setembro atrapalhou nossa vida de uma forma nada patriótica.) A princípio, sairíamos daqui no domingo, iríamos para Cabrobó na segunda para participar do encontro do mutirão em defesa do São Francisco (uma reunião de movimentos sociais contrários à transposição) e na quarta estaríamos em Lagoa Grande. Mudamos os planos (de novo; nada como trabalhar pra nosso próprio blog!) e tivemos que cortar nossa ida a Cabrobó em detrimento de mais um dia de estada em Petrolina.

Portanto, chegaremos a Lagoa Grande um dia antes do previsto. No caminho passaremos na Embrapa – entraremos no maravilhoso mundo da melancia azul, algodão colorido, uva sem semente,  e abóbora verde e amarela. Também temos outra pauta confirmada pra cumprir nos próximos três dias – sobre enoturismo e produção de vinhos. Nossa visita à Vitivinícola Lagoa Grande, produtora dos vinhos Garziera e Carrancas está marcada para quarta de manhã. O povo lá é italiano, talvez as pessoas parem de tentar falar em inglês com a gente achando que somos estrangeiras.

 

LIÇÕES DO DIA

O mundo é feito de contatos.

CDs e pendrives devem sempre ser mantidos à mão.

Ovomaltine genérico, nunca mais: caro e pequeno. Carinhosamente apelidado por nós de microshake.

Selo de not�ciasMesmo impedida de trabalhar por causa de um derrame, Ana das Carrancas continua mantendo a tradição das peças de argila através das filhas

 

Ângela Aparecida de Lima aprendeu a fazer carrancas de argila com a mãe, que aprendeu com a mãe, que aprendeu com a mãe. A primeira dessas mães era uma índia do Piauí, acostumada a trabalhar com barro desde cedo. A segunda delas, Maria Leopoldina, trouxe a técnica consigo quando migrou tentando sair da miséria. Durante a viagem, deu à luz a filha, Ana Leopoldina, em Ouricuri, sertão pernambucano. O ano era 1923 e ninguém da família de mulheres artesãs poderia imaginar que, graças à tradição hereditária de mexer com barro, a menina um dia se tornaria Patrimônio Vivo do Estado de Pernambuco.

Ana Leopoldina Santos, mais conhecida como Ana das Carrancas, hoje tem 84 anos e mora em Petrolina. Não faz mais carrancas de argila – esculturas com formas humanas assustadoras que se punham nas proas dos barcos do Rio São Francisco para afastar os maus espíritos. A tradição ela passou às filhas Ângela e Maria da Cruz, cujas esculturas decoram o Centro de Artes Ana das Carrancas. O lugar é pequeno, com pátio interno, uma pequena loja e a oficina com os utensílios do trabalho. Por todos os lados, carrancas. Os preços variam, podendo chegar a R$ 150,00 de acordo com o tamanho.

Por serem facilmente quebráveis, as carrancas de argila nunca fizeram muito sucesso entre os barqueiros do São Francisco. Sua principal utilidade é a decoração – servem como enfeites, vasos de plantas, cinzeiros, fruteiras – e os principais compradores são turistas. “A pessoas daqui têm preconceito contra a argila. Elas não valorizam o que tem perto”, lamenta Ângela. Além da venda no Centro de Artes, as irmãs enviam as peças para lojas na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro.

Ana das Carrancas é considerada a artista mais popular do Vale do São Francisco. Há peças de sua autoria em vários lugares do mundo, inclusive em um museu do Canadá. Em novembro de 2005, ela recebeu a Ordem do Mérito Cultural do presidente Lula na categoria Cavaleiro. Nessa época já tinha sofrido o derrame que a impediu de continuar trabalhando e danificou sua fala. “Ela sempre foi humilde, nunca ligou muito para fama”, explica Ângela.

Fama que chegou em 1963, quando Ana começou a fazer as carrancas de argila. Ela havia se mudado para Petrolina em 1954. Estava casada com o segundo marido, cego desde o nascimento, e tinha duas filhas do primeiro casamento (Ângela nasceu depois). Com a técnica aprendida da mãe, Ana já fazia utensílios domésticos com argila, mas o dinheiro era pouco. Devota de São Francisco, certo dia foi até à margem do rio para pedir ajuda ao santo. Pediu que ele a fizesse achar uma saída para a pobreza.

Durante a reza, Ana levantou a cabeça e viu um barco com um pescador dentro. Havia uma carranca na proa e um teto de palha no convés. Ela reproduziu o barco em argila, com o teto e a carranca. Foi a primeira peça que fez com a figura que a tornou famosa, até aperfeiçoar a técnica a ponto de poder se dedicar exclusivamente às carrancas. O diferencial em relação aos outros escultores era exatamente o material: Ana era a única a usar argila.

Desde que começou a fazer as carrancas ela sempre usou o mesmo barro, retirado do São Francisco. Um dia, ao chegar à margem para recolher o material, foi impedida. Disseram que ela não podia tirar argila porque isso causaria o assoreamento do rio. Sem ter como trabalhar, foi até o prefeito e pediu que ele lhe desse um anzol para pescar e matar a fome, e que esse anzol seria o barro do rio. Sem ter como recusar, o prefeito deixou que Ana continuasse a recolher a argila.

Com o derrame em 2004, Ângela e Maria da Cruz assumiram o Centro de Artes, que, além de abrigar as peças mantém dois projetos sociais – oficinas de cerâmica e de xadrez abertas para qualquer pessoa. Além de perpetuar a tradição de fazer carrancas, as irmãs continuam esculpindo-as com os olhos vazados, como a mãe fazia em homenagem ao marido. No futuro, as irmãs pretendem construir um museu para expor as carrancas de Ana.

Hoje o dia vai ser tranquilo. Tanto que tiraremos o domingo pra fazer turismo (andar de balsa de uma margem à outra do rio, o que rende fotos legais; visitar a Catedral, a quem devemos nossa capacidade de localização nessa cidade; ir ao famoso Bodódromo, onde “o carneiro é que sofre e o bode leva a fama”). Também vamos comprar Cataflan pra Tici, porque esse dedo dela está um negócio medonho, e agora ela já manca. Se der tempo ainda visitaremos Pedrinhas, uma espécie de balneário de Petrolina. Esse é nosso penúltimo dia aqui: amanhã iremos à CODEVASF (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco) e ao Distrito de Irrigação do Perímetro Senador Nilo Coelho (que controla o projeto, aquele do qual temos falado ultimamente).

 

CLIMA:

Em Petrolina não se sua, mas se passa calor.

É difícil uma gaúcha e uma catarinense de São Joaquim admitirem, mas o vento também nos fez passar frio.

Sombra? Que sombra?

Chuva é coisa raríssima. Mas quando vem, é temperamental ao extremo. Tome cuidado com ela.

 

TRÂNSITO:

Todo cuidado é pouco, mas pouco mesmo.

Os carros param na faixa de pedestre até em rodovia, o que exige freadas bruscas e aparentemente sem sentido de quem vem atrás, mas são barbeiras até o último fio de cabelo. As ruas são o caos.

As lombadas brotam do chão nos lugares mais impróprios e improváveis.

Entre duas ruas que se cruzam sempre há uma vala, praticamente um barranco. É quase preciso engatar a primeira marcha para atravessá-las.

Estacionar é impossível.

As bicicletas acham que são motos.

Apesar de tudo, é fácil se achar porque a sinalização é boa e a cidade é planejada, o que faz com que suas ruas tenham uma certa lógica.

Para achar a verdadeira caatinga, tens que andar por bastante tempo pelas vias secundárias. Ou atravessar a ponte e ir para a Bahia.

As rodovias são retas intermináveis e com poucos buracos. Temos a impressão de que ficaremos pouco tempo na estrada entre uma cidade e outra.

 

COMIDA:

Baião de dois não é uma refeição que dá pra dois. É uma mistura de arroz, feijão, calabresa, bacon e o que mais se quiser por dentro.

Tapioca doce é boa; a salgada nem tanto.

Cuscuz de milho e caju, só em caso de extrema necessidade alimentar.

Uva sem semente: aproveite, porque só tem aqui.

Sabor de suco é algo que sempre desperta dúvidas. Não esqueça de perguntar o que você está prestes a beber.

Sem dinheiro? A solução são frutas. Dois sucos de 500 ml, um de laranja e um de maracujá, uma fruta do conde, uma bandejinha de morangos e 800 g de uva sem semente custaram exatamente R$ 5,60.

Farofa é onipresente.

A carne de bode, de carne de bode não tem nada. É tudo ovelha, ou carneiro, como chamam aqui.

Água, muita água.

 

VOCABULÁRIO

Você não entende nada do que os pernambucanos dizem? Eles também não entendem o que você diz. Fale devagar.

Pinha – fruta do conde

Giratória – rótula

Vocês são viradas! – Vocês sabem se virar sozinhas!

Macaxeira – mandioca

Cabra – cara

 

LIÇÃO

Enquanto uma anota a outra tira fotos e faz vídeos. É o melhor sistema: as fotos saem melhores e não precisa de tanta edição depois; e pra escrever a matéria, é melhor que só uma escreva.

As pessoas são muito dadas ou muito fechadas. Não há meio termo.

Não use camisetas com bandeiras de países europeus ou dos Estados Unidos. O risco de as pessoas começarem a falar em inglês com você ou perguntarem pra sua companheira (que é mais morena) se você é estrangeira é grande.

Bolsas térmicas não funcionam sem gelo.

Sempre peça que limpem seu quarto no hotel.

Bloqueador solar sempre.

Todo mundo fica olhando mesmo, não dê bola.

Não adianta trocar de rádio, a tortura está presente em todas. Axé, pagode e forró é só o que têm.

Selo de not�cias

É da represa do maior rio inteiramente nacional, formadora do maior lago artificial da América do Sul, que vai sair a energia para alimentar a maior obra de infra-estrutura do governo Lula

 

 

A placa ao lado do prédio onde estão as turbinas diz que há 95 dias não acontece um acidente com perda de tempo. Quer dizer que há 95 dias nenhum funcionário da Usina Hidrelétrica de Sobradinho, na divisa entre Bahia e Pernambuco, pára de trabalhar por causa de algum acidente, causando a tal “perda de tempo”. E, mesmo que haja um afastamento, as turbinas não descansam: durante o dia inteiro, os 300 empregados cumprem turnos de 6h para mantê-las produzindo a energia que abastece a Bahia.

 

No futuro, a Usina de Sobradinho vai gerar a força necessária para levar a água dos eixos Norte e Leste da transposição do Rio São Francisco até Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Controlada pela CHESF (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco), a barragem de Sobradinho é o segundo maior lago artificial em espelho d’água do mundo e pode gerar até 1.050 megawatts – cada uma das 6 turbinas produz 175 megawatts.

 

Com esses números, o engenheiro elétrico Daniel Araújo refuta a afirmação de que a transposição vai prejudicar o abastecimento de energia no Nordeste. Por causa da interligação da malha energética entre todas as regiões do Brasil, Sobradinho receberia energia de outra usina em caso de necessidade. Um possível aumento nas contas de luz também não aconteceria porque a capacidade de produzir a força que conduzirá a água pelos canais da transposição já está instalada.

 

“Não vai haver prejuízo à energia do Nordeste. E o preço não vai aumentar com a transposição porque existe capacidade para gerar energia sobressalente”, argumenta Daniel. Em uma fase inicial da obra, com necessidade de alimentar apenas uma subestação, seriam necessários entre 30 e 70 mil volts. Com a rede interligada, Sobradinho pode fornecer até 500 mil volts.

 

Às vésperas do início da época de chuvas na nascente do São Francisco, na Serra da Canastra, Minas Gerais, a represa está com 54 % de sua capacidade total. A previsão é que a partir do mês que vem, quando começar a chover nas cabeceiras do rio (período este que vai até dezembro), a quantidade de água da barragem aumente. O lago de Sobradinho pode abrigar 34 bilhões de m3 de água em uma área de 300 km de extensão por 12 km de largura.

 

Quando foi construída, a Usina desabrigou 70 mil pessoas e alagou quatro cidades: Casa Nova, Sento Sé, Remanso e Pilão Arcado. À época, o custo total da obra foi de U$ 870 milhões (dezembro de 1979). Daniel explica que ainda poderiam ser construídas no São Francisco mais duas barragens para usinas de pequeno porte, com produção de cerca de 100 megawatts. Mas de usinas de grande porte, como as de Sobradinho, Três Marias (MG), Itaparica (PE), Paulo Afonso (BA) e Xingó (PB), o rio está saturado.

 



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